Quando me sentei a escrever as minhas primeiras histórias, não imaginei que o futuro me levasse pelos caminhos sinuosos da auto-publicação. Poucos sabem que comecei esta jornada escrevendo e submetendo contos em inglês a revistas literárias internacionais. Depois de muitas rejeições e algumas respostas encorajadoras de editores do outro lado do Atlântico, decidi arriscar pela via menos tradicional. Fiz-lo na esperança de encontrar leitores que partilhassem a minha paixão por histórias estranhas e obscuras. Hoje, com dois pequenos livros auto-publicados em português e inglês e um conto prestes a chegar às livrarias com o selo da Editorial Divergência, o Diogo desafia-me a refletir sobre a minha jornada num país onde escasseiam as oportunidades para novos escritores do género fantástico. Será que auto-publicar é a resposta para crise do mercado literário ou algo a evitar a todo o custo?

Os primeiros passos

Pergunta a cinco pessoas o que significa auto-publicar e certamente receberás cinco respostas diferentes. Algumas em conflito directo com outras ou com elas próprias. Certamente, não serão muito diferentes das respostas que eu própria encontrei quando dei os meus primeiros passos neste trilho ainda pouco percorrido em Portugal.

Eventualmente, depois de anos de debates e pesquisas, encontrei a definição que me enche as medidas. Hoje, descrevo a auto-publicação como a publicação por conta própria sem o apoio de uma editora tradicional, vanity, ou híbrida (custos partilhados entre o autor e a editora).

A nível puramente teórico, quando auto-publicamos retemos todos os direitos intelectuais, de distribuição e impressão duma obra. A nível prático, autopublicar acarreta um investimento financeiro e emocional que não está ao alcance de todos os escritores.

Quando auto-publicamos temos de aprender a gerir todos os passos do processo desde a escrita, à edição, revisão, trabalho com leitores beta ou alfa, paginação, publicação, distribuição e, para além de tudo isto, marketing e relações públicas. Todos os passos que seriam geridos por uma editora, passam a ficar a cargo do autor. E não deixem que vos enganem, todo este trabalho é extremamente gratificante mas arrisca tornar-se esmagador quando apenas estamos a começar.

Desafios, desafios e mais desafios

Uma pergunta que recebo com frequência é a seguinte: qual é a parte mais desafiante do processo de auto-publicação?

Posso ser directa? Todas! Quanto mais avanço nesta jornada, mais desafios encontro. Quanto mais publico, mais percebo que cada livro me trará uma constelação nova de obstáculos.

E o mais incrível de tudo? Os desafios são diferentes e únicos para cada escritor e dependentes da fase de vida em que este se encontre.

Mas embora cada um de nós experimente as dificuldades de forma distinta, é sempre útil ler, ouvir testemunhos e falar com autores que seguiram a via da auto-publicação. Uma coisa que aprendi ao longo destes anos é que esta indústria é dura (e por vezes cruel) e só temos a ganhar com a partilha de conhecimentos e frustrações, principalmente com pessoas que enfrentam exactamente as mesmas dúvidas que nós.

São muitos os escritores que entram na via da auto-publicação acreditando que é um processo fácil e rápido. Quantas vezes não ouvimos pessoas bem-intencionadas dizer: “se nenhuma editora aceitar o teu livro podes sempre tentar a auto-publicação”?

Isto cria expectativas pouco saudáveis e realistas na mente de novos escritores. E talvez seja este o maior desafio para quem está a começar esta jornada.

Eu sei que o foi para mim. A frustração de não conseguir atrair leitores ou interesse para as minhas histórias. A dificuldade em lidar com vendas fracas e inconsistentes. O contorcionismo de ter de encontrar um equilíbrio entre o marketing, a escrita e a minha vida pessoal e profissional. A constante luta contra o preconceito que ainda existe contra a auto-publicação. O desafio de encontrar (e conseguir contratar) bons editores, revisores, designers de capa e diagramadores para os meus projectos! Não apenas bons profissionais, mas profissionais que respeitem a visão que tenho para os meus livros.

Apesar de ter dois pequenos livros publicados, todos estes desafios continuam a ser uma constante. Apenas aprendi a lidar com eles de forma diferente, com mais maturidade e uma melhor gestão das minhas expectativas e emoções.

Hoje, vejo cada projecto como uma oportunidade para crescer em humildade, resiliência e amor-próprio. Encaro cada livro como uma aprendizagem (por vezes dura de engolir) e abraço os obstáculos de uma forma cada vez mais consciente.

As maiores lições

O que aprendi nos últimos dois anos encheria as páginas dum livro. Mas penso que as lições mais importantes foram as seguintes:

  • Como autores temos de aprender a colocar a nossa saúde mental em primeiro lugar. Tentar agradar a todos apenas nos levará à exaustão. Construir um bom relacionamento com os leitores é crucial, mas é ainda mais importante saber onde colocar os nossos limites e a nossa confiança.
  • Escrever mais histórias e aprender a criar um processo de escrita mais consistente é mais importante do que lutar pela popularidade nas redes sociais.
  • Temos de aprender, o mais cedo possível, que o nosso valor não está naquilo que produzimos, mas naquilo que somos.
  • Aprender a gerir as nossas expectativas e frustrações é tão importante quanto delinear um plano de publicação e marketing. Auto-publicar é um processo que nos desafia em tantos aspectos. A paciência, resiliência e persistência são as melhores virtudes que podemos cultivar porque tudo vai demorar muito mais e custar bastante mais do que aquilo que tínhamos planeado.
  • Todos os bons livros nascem da colaboração entre o escritor, leitores beta/alfa, editores e revisores. Auto-publicar não significa fazer tudo sozinho (embora alguns autores o façam), mas saber com quem colaborar e em quem confiar para que o producto final seja o melhor possível.

O lugar e valor da auto-publicação

Sou a primeira a dizer que a auto-publicação não é para todos os escritores. Primeiro porque, quando bem feita, acarreta um custo e risco elevados para o autor (em média, pode custar entre 500-2000€ editar, rever e formatar um romance). Segundo porque implica um grande investimento de tempo, dedicação, disciplina e vontade de aprender, inovar e arriscar.

Contudo, num mercado que desvaloriza continuamente novos autores do género especulativo e pouco encorajamento oferece a quem está a começar, acredito que para muitos novos autores, a auto-publicação seja a única janela aberta no meio de centenas de portas fechadas.

Afinal de contas, quantos novos escritores nunca chegam a receber uma única resposta às suas submissões (nem sequer uma rejeição)? Quanto espaço dedicam as editoras tradicionais a autores portugueses num mercado saturado por traduções de sucessos internacionais?

Mas será que auto-publicar é mesmo a única opção?

O nosso mercado está a mudar.

Recentemente temos assistido ao crescimento de editoras tradicionais que apostam em novos autores como a Editorial Divergência, Imaginauta, Edições Velha Lenda, Cultura, Suma de Letras (uma chancela da Penguin Random House que publicou o recente sucesso Aquorea – Inspira da autora M. G. Ferey), entre outras.

Acredito que o mercado tradicional nos trará muitas boas surpresas nos próximos anos. Propulsionados pelo exemplo de editoras “fora-da-caixa” como a Desrotina, penso que em pouco tempo estaremos a viver num período de reinvenção da nossa literatura.

Neste contexto de mudança, acredito que a publicação tradicional continua a ser a melhor aposta para novos autores. Principalmente para todos aqueles que procuram o reconhecimento e segurança que vem com o selo duma grande editora, para aqueles que querem concorrer a prémios literários, para todos os que querem fazer parte duma equipa e para aqueles que não têm recursos nem tempo para gerir todo o processo de publicação.

Mas eu também acredito que a edição tradicional e independente podem co-existir no nosso mercado e mesmo na própria carreira de cada escritor.

Deixa-me explicar-te o porquê.

A auto-publicação não é um modelo novo. Antes da imprensa de Gutemberg e do nascimento das grandes casas editoriais, os escritores já auto-publicaram as suas obras penosamente escritas e copiadas à mão. O modelo entrou em desuso com o crescimento das grandes editoras, que hoje em dia se vão tornando cada vez menos numerosas.

O interesse pela auto-publicação foi reacendido recentemente com o aparecimento dos livros eletrónicos e dos serviços de print-on-demand como o Kindle Direct Publishing (KDP) da Amazon. Este interesse mantém-se vivo e em crescimento porque muitos bons livros continuam a ser rejeitados.

Isto acontece porque o mercado literário é, acima de tudo, uma indústria.

Muitos livros excelentes continuam a ser rejeitados apenas porque os grandes editores não acreditam no seu valor comercial. Também não podemos esquecer que apesar da abertura do nosso mercado, a discriminação existe, afectando gravemente autores marginalizados pertencentes a minorias étnicas, de género, e identidade. Por último, num país dominado por thrillers e romances históricos, o Terror, Ficção Científica e Fantasia continuam a ter dificuldade em encontrar o seu lugar.

Nestes casos, a auto-publicação é uma forma de emancipação.

Uma maneira arrojada de mostrar aos nossos editores que existe procura pelas nossas histórias. Que existe um espaço para narrativas menos tradicionais e valor em apostar naquilo que é diferente e nosso.

Nestes casos, a auto-publicação não é apenas uma opção a ser tomada em conta, mas uma forma de desbravar caminhos num mercado que se mantém teimosamente impenetrável.

E agora?

Esta indústria não é fácil nem gentil para ninguém.

Acreditar que um caminho é mais fácil do que outro é um erro que muitos cometem. Auto-publicar exige tempo, investimento, paciência e aprender superar o preconceito para ganhar a confiança dos leitores.

Publicar de forma tradicional exige paciência, aprender a submeter e “vender” um manuscrito a editores e a navegar pelo mercado tradicional. Ambas as vias requerem, cada vez mais, que os autores participem activamente na promoção dos seus livros.

Escolher um caminho não invalida experimentar o outro. Como autores, devemos ser livres para nos reinventarmos sempre que o quisermos. E se levas alguma coisa deste artigo, espero que seja isto!

Biografia

Nascida e criada no norte de Portugal, Ana C. Reis foi além das fronteiras em 2009, acabando por assentar entre Estrasburgo e Potsdam, onde vive atualmente com o seu marido, rodeada de livros, plantas, mapas, e mochilas prontas a ser levadas às costas. Formada em Biologia, Jornalismo e Comunicação, trabalha actualmente como escritora e gestora de conteúdo científico. “O Caça-Cidades” foi o seu primeiro trabalho auto-publicado, um conto literário narrado em tempos de pandemia. Em 2021 publicou o seu primeiro livro em inglês intitulado “The Summoner’s Cry”, uma aventura de Dark Fantasy adulta. 2022 trará o seu primeiro trabalho publicado de forma tradicional, “A Ninfa e os Azulejos” um tributo à cidade que a viu crescer em forma de fantasia urbana que fará parte da antologia Os Medos da Cidade (Editorial Divergência) a chegar em Março às livrarias. Quando não está a escrever sobre monstros e feiticeiros, podem encontrá-la no seu blog: www.poweredbybooks.com 


Obrigado, Ana, por aceitares o convite para escrever sobre este tema. Não poderia sentir-me mais grato, especialmente pelo contributo que deste!

Este texto foi publicado de acordo com o enviado pela autora, sendo que nenhuma alteração foi feita.

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