Foi no mês passado que dei com uma publicação de um blogue (obrigado, Google, pela sugestão) que falava como os autores se tinham de começar a proteger mais. Uma publicação de uma autora convidada que, na verdade, é dona de uma editora de publicação híbrida. Isto chamou-me logo à atenção, e não só fui ler mais, como fiquei consciente de que a publicação adivinha de um estudo publicado no Conselho Europeu de Autores por parte da Sociedade de Autores, tendo realizado o estudo no Reino Unido.

Isto, desde cedo e pelas suas conclusões preliminares que (e traduzindo): “94% dos escritores perdem dinheiro com acordos de publicação ‘híbridos’/pagos – normalmente na casa dos milhares.”; “Após quatro meses a tentar, sem sucesso, obter mais apoio da empresa, desisti de tentar contactá-los. A minha primeira declaração de royalties mostra ganhos de £ 30. Vejo os £2.000 que paguei como perdidos.”; “Por £2.300 recebi o e-book, 25 cópias físicas, 10 pósteres, 25 cartões postais, 100 panfletos e 50 marcadores — após o que acredito que a empresa lavou as mãos de mim.”; “Uma média de apenas 67 livros são vendidos por acordo, resultando em royalties de apenas £ 68.”; “Paguei £ 5.000 e o processo destruiu completamente a minha fé na capacidade deles de produzir um livro e comercializá-lo de maneira eficaz, e a experiência afetou a minha confiança na publicação em geral.”; “59% dos escritores disseram que o seu livro não estava disponível para compra em livrarias.”.

Isto soou-me logo a algo familiar, não só do que já partilhei convosco, como do que já aconteceu comigo por anos e com colegas autores. Senti logo a necessidade de ir ler mais do relatório (que, apesar de ser em inglês, se lê rapidamente) e, claro, de trazer a público à nossa realidade. O relatório é tão importante e com a informação apresentada de forma tão direta, que o que vos vou escrever em itálico é baseado na minha tradução e adaptação.

Pontos nos is

O que é a publicação tradicional?

Num contrato de publicação comercial tradicional, um editor fornece tudo, desde a edição e impressão até ao marketing, publicidade e distribuição. Tem do autor os direitos de publicação e paga ao escritor uma taxa ou adiantamento. Estas editoras não pedem pagamentos pela parte do escritor. Financia o seu funcionamento através da venda de livros e, portanto, investe dinheiro e recursos ao apostar no sucesso do livro.

O que é um serviço de autopublicação?

As ofertas de publicação ‘híbridas’ / pagas também não devem ser confundidas com a autopublicação.

Os escritores podem autopublicar a um custo muito pequeno para eles prórpios mas, mesmo que paguem a um provedor de serviços de autopublicação para editar, projetar, produzir e comercializar o seu livro, os direitos permanecem com o escritor. O escritor recebe todos os lucros após a plataforma de vendas ou o distribuidor receber a sua parte e pode retirar-se do contrato a qualquer momento.

Esses prestadores de serviços são financiados por pagamentos acordados e preferencialmente negociados com o autor.

O que é a edição híbrida/paga/editoras vanity?

Se um escritor paga pela publicação e concede à empresa uma licença de direitos ou se a empresa recebe uma parte dos lucros, o escritor está a lidar com um modelo ‘híbrido’ / pago de serviço de publicação.

Estas empresas descrevem-se como “contributivas”, “subsidiárias” ou editores de ‘parceria’, mas têm muito em comum com o que costumava ser chamado ‘vanity press’. Nas suas abordagens de marketing para os autores, estas empresas frequentemente sugerem que operam como editoras tradicionais e, na verdade, algumas destas empresas aparecem como selos de grandes editoras, ganhando legitimidade das suas marcas/editoras-mãe.

À primeira vista, estes acordos de publicação podem parecer-se muito com publicação tradicional, mas são muito diferentes. Raramente há qualquer sinal de despesa por parte do editor ‘híbrido’, exceto o que é financiado pelo autor. Como tal, termos como “híbrido” . Ou seja, o autor paga à editora!

Não são oferecidos adiantamentos e geralmente não há compromisso ou intenção por parte do editor ‘híbrido’ para publicar o trabalho que não seja em e-book e/ou impresso sob demanda (‘POD’), ou numa tiragem ultracurta. O escritor não possui nenhum dos livros produzido, exceto para cópias iniciais limitadas.

Qualquer pessoa pode configurar-se como um editor, independentemente da sua estabilidade financeira, conhecimento e experiência de publicação, ou experiência comercial. Especialmente por os custos iniciais e indiretos serem mínimos e as despesas são financiadas pelos escritores, não pela receita da venda de livros.

No momento de enviar um trabalho para publicação, os escritores ficam vulneráveis. Investiram muito tempo, trabalho, energia e criatividade nos seus manuscritos. Eles querem ser lidos e que o seu trabalho seja legitimado…

Os serviços de publicação ‘híbridos’ / pagos geralmente exploram este desejo, enviando elogios excessivos sobre o manuscritos aquando dos e-mails de proposta de contrato, e dizem aos escritores o que eles querem ouvir. Eles podem, inclusivamente, reivindicar que as suas abordagem são melhores do que a publicação tradicional ou a autopublicação, sem nunca explicar o que significa. São editoras que vão enfatizar o quão empolgadas estão por trabalhar com o escritor. Claro que, ouvir um ‘editor’ expressar interesse no seu trabalho, pode ser difícil para um escritor dar um passo atrás e vê-lo pelo que é: uma abordagem de vendas, projetada para tirar vantagem das esperanças dos escritores, a sua paixão pelo seu trabalho e o seu desejo de validação — para não mencionar a falta de conhecimento sobre as complexidades da indústria editorial.

Do ponto de vista deste relatório, as conclusões são que…

Das diferentes formas de publicação, aquela que obriga o autor a pagar é a pior experiência. Isto conforme a pesquisa, em que este método não resulta em vendas ou exposição que justifique o valor pago pelo autor.

Estes serviços ficam aquém das expectativas, com os escritores a entregar desnecessariamente direitos e controlo sobre os seus manuscritos, juntamente com grandes somas de dinheiro. Ainda se reitera como os investigadores viram o impacto que isto tem nas carreiras dos escritores e na confiança no seu trabalho e em nas suas finanças.

O que descobriram neste estudo de um ano?

Descobriram que os escritores pagaram muito mais por estes serviços do que lhes teria custado a autopublicação. Ainda notaram que, enquanto muito poucos escritores recuperaram o investimento, eles também renunciaram aos direitos do seu trabalho. Em média, os escritores perderam mais de £ 1.800 nesses negócios e houve altos níveis de insatisfação.

Apesar destes serviços serem muitas vezes comercializados como publicação tradicional, os escritores não recebiam o reconhecimento do selo editorial ou de se ser publicado por uma respeitada ou conhecida editora tradicional.

Apesar de alguns autores estarem satisfeitos com o serviço recebido, um número significativo deles não tinha experiência de publicação ou, apesar disso, sentiram que o processo foi opaco e que não correspondeu às expectativas.

No geral, o valor pago não refletiu o serviço prestado e os direitos dados. Muitos escritores que não conseguiram garantir um texto convencional de boa qualidade ou um bom acordo de publicação teriam tido melhores oportunidades se tivessem investido o dinheiro em edição e, quiçá, na autopublicação.

Os entrevistados relataram que as taxas cobradas variavam de £ 330 a £ 10.000 (386€ a 11.703€) . O valor médio pago pelos escritores foi de £ 2.000 (2340€) no Reino Unido e de $ 2973 nos EUA (2774€).

Em suma:

• Uma média de apenas 67 livros físicos foram vendidos por contrato.

• A média dos royalties recebidos foi de apenas £68. (79€).

• Isto resultou numa perda média para o autor de £ 1.861 (2177€), com perdas relatadas tão altas quanto £ 9.900 (11584€).

• Apenas quatro autores (6%) relataram que lucram com este método.

Os autores levantaram ainda preocupações significativas sobre os serviços prestados:

  • 59% dos escritores que aceitaram acordos ‘híbridos’/pagos relataram que o seu livro não estava disponível para compra em livrarias, supermercados e outros retalhistas.
  • 52% dos escritores estavam insatisfeitos com os esforços dos editores para gerar vendas e no interesse pelo trabalho do autor.
  • 37% dos escritores estavam insatisfeitos com o atendimento ao cliente que receberam.
  • 36% dos escritores disseram que estavam insatisfeitos em geral com o seu contrato de publicação.
  • 48% dos escritores disseram que não recomendariam a sua editora a outras pessoas.
  • Muitos escritores não foram informados dos seus direitos caso quisessem terminar o contrato.
  • Apenas 30% dos escritores relataram que receberam um aviso claro de que podiam cancelar o contrato no prazo de 14 dias.

ISTO NÃO É UM CASO ISOLADO: 91 empresas foram nomeadas pelos entrevistados da pesquisa, indicando que este é um problema generalizado, não um problema com uma ou duas empresas desonestas.

COMO FAZEM ESTAS EMPRESAS MARKETING?

Acontece maioritariamente em anúncios nos motores de busca (Google) e que fazem com que qualquer pesquisa como “ser publicado” ou “publicar um livro infantil” apareça primeiro do que um resultado orgânico e de editoras tradicionais.

Nos sites destas empresas não se encontra de forma explícita que o autor tem de pagar, acabando o autor por submeter um manuscrito às cegas.

“Para que uma empresa se descreva como editora, a sua receita principal deve ser das vendas de livros. Uma empresa que ganha mais dinheiro com os pagamentos que recebe de escritores do que qualquer venda de livros é um provedor de serviços, não um editor genuíno, e deve descreva-se claramente como tal.”

O que mais diz o relatório?

O relatório termina com diversas recomendações para os autores e para as editoras de modelo híbrido. A primeira recomendação é a necessidade de o autor se educar e de saber pesquisar corretamente na internet sobre o tema da publicação.

Pessoalmente, e após ler o relatório, sentia-me a fazer checklist a uma lista terrível, onde me vi representado em cada palavra e dado. O mesmo já tinha constado no blogue diversas vezes, quer com o que sofri e aprendi ao publicar um livro, quando expliquei os diferentes tipos de editoras, os erros que comenti enquanto autor, no porquê de sofrerem de estigma os autores, do que é ser autor em Portugal, no facto de o que existem são boas e más editoras e, mais recentemente, no meu estudo “caseiro”: Quanto custa publicar um livro?.

Poderia dar-vos mais dezenas de exemplos, como os artigos jornalisticos e que expoem a realidade destas empresas em Portugal, ou de artigos académicos de como tudo isto funciona, mas o fundamental é como nós, autores, temos de perder o medo de nos valorizar. De admitirmos que, se amamos realmente escrever, o publicar não é tudo e que temos de ter, em primeiro lugar, editores sinceros e que têm realmente interesse em vender o nosso livro. E não só porque acreditam em nós, mas porque estão a apostar financeiramente nele! O mesmo com a presença de pessoas formadas nas editoras e com a disponbilização ao autor de serviços competentes de revisão e edição de texto.

Infelizmente, e por diversas pesquisas no LinkedIn, podemos constatar com muitas editoras hírbidas não têm sequer pessoas com experiência na área de edição, literária ou linguística, o que torna tudo pior. O mesmo na análise às redes sociais destas editoras, onde é mais comum encontrarmos fotografias que mostra a editora a trabalhar ao invés de estar a promover os seus livros.

Contudo, e como eu já refleti em publicações passadas e é dito corretamente neste relatório, não podemos esquecer que nem todas as empresas são más, e que o que devemos, autores, pedir e exigir, é transparência no processo. Mais sensatez no que é dito ao autor e um trabalho mais sério em algo tão importante como o trablhado do texto.

Enquanto autores, somos livres das escolhas que tomamos e do que fazemos com o nosso manuscrito, mas este manuscrito deu-nos trabalho. Foram meses, às vezes anos, e se nem uma revisão vamos ter, como ficará depois marcada a nossa carreira literária?

Os autores têm de ser mais unidos!

Em suma, temos de saber ser unidos. De negociar contratos, de pesquisar e falar com outros autores e associações. De ler o que está na legislação e de perceber como podemos ter os nossos direitos assegurados! Quanto mais juntos estivermos na valorização do nosso trabalho, mais o mercado consegue crescer e, com isto, todos os diferentes meios de publicação. Sem estigma. Sem perconceito.

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