A lógica “inexplicável” do tempo

Quando era mais novo não gostava de ler. Tampouco de sopa e até de comer, para ser honesto. A escola achava uma tortura com a quantidade de coisas que tínham de saber e fazer exercício era algo só para as aulas de educação física. Andar no ginásio? Gostar de ir ao ginásio? NUNCA!

Mas o nunca foi de pouca dura. Comecei a ler, a gostar de ler, levando-me a descobrir diversos géneros anteriormente desconhecidos. Mas sabia, com cada força nos meus ossos, que nunca iria ler romances, biografias, livros técnicos ou eróticos. Perder tempo com algo assim? E com géneros tão… ugh, não!

Num aniversário, os meus pais ofereceram-me um voucher no ginásio local e, adivinhem quem começou a gostar de ir ao ginásio? Pois bem, não procurem longe, fui eu que ganhei esse gosto. O mesmo aconteceu com tantos outros e que hoje nem consigo identificar. O certo é que, agora, com 28 anos e longe do meu crescimento em Leiria, dei-me conta de uma coisa: tudo o que dizia nunca ir acontecer, aconteceu. E isto, esta realização, permitiu-me ser mais feliz!

O inexplicável é, na verdade, explicável

É das coisas que mais digo desde que a aprendi, mas somos seres biopsicossiais. Isto significa que não só somos influenciados pela nossa genética que atua, direta e indiretamente, na nossa psique, isto é, o psicológico, como o facto de sermos humanos e socializarmos com diversos agentes (quer primários ou secundários) nos leva a construir e reconstruir a nossa personalidade. Isto implica os nossos gostos, as nossas ideias, sonhos, ambições e, no grande plano, a perceção do mundo.

Saber isto, e auto analisar-me a mim mesmo, deu-me verdadeira consciente de que, não só acho que perdemos demasiado tempo (incluindo eu) no “nunca farei isso, nunca gostarei disso” e derivados, do que a aproveitar realmente a vida. A perceber e a dar essa mensagem a nós próprios de que por mais que a nossa perceção seja uma num determinado momento ou face a uma determinada circunstância, a mesma poderá mudar. E esta mudança, que implica mudança em nós, é normal. É o esperado!

Comecei a publicação ao ilustrar diversos exemplos que me recordo de ter na juventude. Hoje, todos eles se dissiparam e não passam de fios de memória, somente presentes em mim porque faço por ter noção de mim. Esta perceção levou-me a perceber que tenho gostado de ler certas biografias, e até já adiciono livros mais técnicos à minha lista de leitura. E os eróticos? Confesso que já não passo um ano sem ler, no mínimo, três. Mudei de cidade, mas nem isso afastou a minha inscrição num ginásio da zona. O mesmo é válido para o meu gosto em dormir, em manter a casa limpa e em organizar ao máximo a minha vida financeira e perspetivar esse futuro.

É no perspetivar que encontrei tudo isto

Estando novamente a estudar (alguma vez diria que o voltaria a fazer?), pensar no que farei com o curso deu-me a realização de que não adianta pensar de forma depreciativa sobre situações hipotéticas que me levariam a dizer “eu nunca”, para começar antes a dizer a mim mesmo: “quem sabe?”.

Pode parecer ridículo, uma mudança subtil, mas a partir do momento que começamos com esta filosofia, ao invés de fecharmos uma porta, passamos a deixá-la entreaberta. Isto não só pode ajudar a sossegar uma mente ansiosa e receosa, como a saber aproveitar as oportunidades quando surgem. Isto é especialmente útil quando sofremos, ou de síndrome de impostor, ou simplesmente do velho e malcheiroso comodismo.

Isto também me afetou na escrita

Lembro-me de que quando estava num direto com a Sofia Costa Lima, ela me perguntava se mudava alguma coisa em O QUE NOS MAGOA. A minha resposta na altura, foi bastante rápida e categórica, com um “não”. Porém, bastaram semanas para me inteirar que, talvez, até poderia mudar uma ou outra coisa. Isto levou-me a perceber que, naquele momento, estava a ser o meu inimigo número um ao não admitir que não conseguiria uma versão melhorada daquele trabalho.

Hoje sou assim mais cauteloso nas observações públicas que faço aos meus livros e reflito, quase que cientificamente em muitos casos, se a minha crença na história que estou a escrever é, de facto, boa. Se mesmo após publicada, ficarei inteiramente feliz com ela e seguro das decisões que tomei. Reparem, não se torna arrogância, muito porque saber disto me leva a trabalhar eventualmente mais. A questionar mais. A aliar-me mais a outras pessoas. Algo transversal a outras esferas da minha vida em que gosto de debater tomadas de decisões com várias pessoas para me ajudarem a construir uma perceção completa, e não uma que está, na verdade, toldada pelo meu conhecimento limitado.

O tempo faz milagres, e temos de o permitir

Este saber popular é, a cada segundo, tornado real a cada decisão da humanidade. O tempo permite que maturemos as nossas ações e pensamentos. E, enquanto o permitirmos, felizes ficamos. Damos conta da nossa evolução ao longo dos anos e de onde poderemos chegar. Todavia, acredito que ignorar a sua passagem e estagnar só traz consequências que só veremos, curiosamente, quando ele nos obrigar a correr para a nossa felicidade.

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