Pensei nesta publicação quando fazia a penosa viagem entre Albufeira, Leiria para, no fim, terminar no Porto. Mesmo agora, que a escrevo, não sei se a vou publicar ou quanto tempo demorarei até o fazer. Talvez segundos, talvez dias? Conhecendo-me, diria dias, mas sei que vos falei de como arriscar é bom e esta própria ideia adveio disso: de pensar no que vos queria contar e falar e de como isso poderia acrescentar algo. Ser significativo. Só assim me faria sentido.
O mundo é rápido
O saber popular que temos medo do desconhecido é visível todos os dias. Quer seja por uma nova ideia, invenção, crença, desafio, algo diferente a nós ou até um medicamento, as coisas mudam. Faz parte do ser-se humano e de não nos conformarmos. Mas, nesta procura e naquilo que é a aventura da vida, facilmente nos perdemos. Facilmente deixamos que outros sentimentos nos invadam. Incompreensão. Medo. Receio. Estigma. Preconceito. Inveja. Sendo isto normal, deveria ser igualmente normal o Homem, pela sua característica única de empatia, ser o primeiro a quebrar este tabu. A ver que o que importa é o respeito, a liberdade e a dignidade.
Mas o mundo é caótico. Diversas crenças e valores moldam a nossa sociedade e espelham o que esperamos nos outros e, naturalmente, em nós mesmos. Uma pressão invisível, mas que, se olharmos, facilmente vemos em cima de nós. No peso dos nossos ombros em percebermos que a sociedade padroniza os papéis sociais e, rara ou dificilmente, permite que exista um verdadeiro livre-arbítrio.
É por isso que sempre me senti na obrigação de ouvir os jovens, de escrever sobre eles, e de dar voz às próprias preocupações que enfrentei enquanto adolescente. Verdade seja dita, ainda hoje estas preocupações existem e bem sabemos como a pandemia piorou a saúde mental dos jovens. Muitos veem isto como fraqueza, vindo com argumentos “de que no meu tempo é que era” ou “no meu tempo ninguém se queixava” ou ainda “no meu tempo é que as pessoas trabalhavam”. Sendo estas observações válidas a certo ponto, as mesmas atacam de tal forma a perceção de quem lê e influenciam tanta pessoa que alinha nesta conversa, que se perde espaço ao pensamento crítico. À empatia! Ao pensarmos que, se calhar, hoje simplesmente se procura mais bem-estar. Que temos maior preocupação entre o querer trabalhar para viver e não viver para trabalhar. Que se procura mais dignidade e respeito, não só pela condição humana em si, mas para conseguirmos aproveitar a vida sem esperarmos pela idade tardia da reforma.
As redes sociais…
… disseminam muito deste discurso. Do comentário rápido. Do usar um teclado para esconder uma inveja ou incompreensão que teimamos em não ir ler para saber mais para nos limitarmos a acreditar cegamente nos medos, receios e insegurança dos outros nos seus comentários nervosos.
Isto gera pressão. Mesmo que não diretamente a alguém, mas nas ideias que mete às pessoas que se relacionam com este alguém. E isto é preocupante. É assustador. É o que leva a pessoas cada vez mais fechadas em si ou que, infelizmente, se culpam por serem quem são. Por serem incompreendidas sem um mundo que não está sequer predisposto a ouvir. A querer zelar pelo bem-estar que deveria ser fator de máxima importância numa sociedade.
Chegamos a mim
Quando me assumi aos meus pais como tendo uma relação com alguém do mesmo sexo, era este peso que tinha em mim. Um construído pela sociedade e pela cultura em que cresci. Isto tudo levou a que eu próprio me demorasse a descobrir. A compreender quem era e o que queria. Basicamente: o que me fazia feliz. Mas, como sabemos, uma pergunta tão simples tem, infelizmente, um peso visivelmente negativo e pejorativo. É como termos a resposta para, logo depois, nos vermos dentro da jaula do confinamento social imposto por décadas de uma cultura e educação que parecem estar longe dos palcos dos direitos humanos (e até de povos antigos).
Isto magoa. Magou-me e ainda hoje me faz questionar partes de mim. Não estou infeliz nem me sinto como tal, mas parte de mim sinto-a bloqueada. Com medo de ser desbloqueada mesmo que nestes anos as coisas tenham evoluído. Mesmo que tenha recebido um abraço do meu pai e um quase-que-discurso que meti no meu livro Dislike, existe parte de mim que sinto que se perdeu ou que só será desbloqueada com os anos.
Somos seres psicossociais
O que eu sou, o que nós somos, só existe com base nos outros. Nas interações que temos com quem nos rodeia e pelas diversas instituições que contactamos. Quer seja uma escola, a catequese, um clube desportivo, um encontro semanal ou outro evento, tudo isto nos molda. Nos permite construir, reestruturar ou destruir a nossa identidade. Quem somos! Isto faz de nós quem somos e, efetivamente, não somos seres que vivem bem isolados por conta de todas as interações que nos alimentam. Isto permite descobrir quem somos, perceber que papel social tomar na sociedade, em casa, com os outros, no nosso emprego, no nosso círculo de amigos e de colegas.
Isto é, claro, um trabalho de décadas de evolução que muta e nos permite crescer. Uma evolução que, claro, é também própria a cada um e com fatores genéticos/biológicos. Infelizmente, hoje, e apesar de diversa informação científica detalhada, as pessoas perdem-se no medo, no que representa ser-se humano, ao não compreender como é fácil magoar-nos pela sociedade. Pelos outros. Pelas expetativas e pelas ideias pré-concebidas que não ajudam em nada. É por isso que é preciso lutarmos pelos direitos. É por isso que é preciso existir marchas LGBT, existir momentos de consciencialização para dar às pessoas conhecimento. O mesmo para outras causas, como combates de alterações climáticas, pela descida dos impostos, por uma mudança de Governo e por aí em diante.
É revoltante assistir ainda aos discursos de “incentivo” a determinado assunto quando, caso saiba, sendo nós pessoas livres, temos o direito de escolher o que queremos seguir. Isto faz parte da nossa liberdade e devemos lutar para que outros tenham essa opção. Ao invés, acabamos por tornar as coisas tabus, alimentando a ignorância e o ódio porque o humano parece não compreender que ser-se humano é, na verdade, bom. É o que se espera de alguém. É muito mais que respeito ou tolerância. Tem de o ser! Porque isto magoa muita gente. Não só num campo de orientação religiosa, sexual ou política, mas no nível global do que se espera de nós. Esta pressão, este medo de sair fora da caixa e de se puxar a evolução, leva a uma sociedade mais contraída, focada em si, sem preocupação verdadeira com o que deve ser viver. Transversal a um estudante que sofre da pressão dos estudos, até a alguém que faz malabarismo para pagar as contas ou para ter um trabalho melhor. Tudo isto se equipara na grande equação que representa uma individualidade que tem de ser global. Por todos. Na busca de uma condição de vida melhor. De uma sociedade melhor.
Eu sei, eu sei…
… pensam que isto é uma utopia. Mas não deveria de o ser. A inclusão não pode ser considerada uma utopia. Ou o combate à pobreza, à fome, à justiça e equidade. É por isso que, em mim, tudo isto me magoa. Porque vendo como a sociedade reage, como ainda faz piadas com temas que ofendem, eu próprio me sinto constrangido. Receoso. Não só por mim, mas por todos nós. Porque, bem, se não somos capazes de defender esta igualdade humanitária, acredito que, mais cedo ou mais tarde, outro tipo de crise social se irá impor…
Observação: Indiquei que demoraria dias a publicar este texto, mas tendo o mesmo sido escrito em 19 de agosto de 2022, só agora, a 19 de junho de 2023, o publico.

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