O que “O Criador” me levou a pensar sobre a Inteligência Artificial

Estamos em outubro de 2023 e, para os menos atentos, não são apenas a guerra e a crise social que fazem manchetes nos jornais. Há outro tema que, quase todas as semanas, ganha novo fôlego e desenvolvimentos por vezes alarmantes, e esse tema é o dia a dia da Inteligência Artificial.

Há relativamente duas semanas li uma notícia que dava conta de uma empresa de produtos “vestíveis”, os chamados wearables, que lançou uma espécie de personal trainner movido a Inteligência Artificial e que, com base nos dados únicos de saúde recolhidos no produto, os interpreta e, usando Chat-GPT4, fornece um acompanhamento extremamente personalizado e único e que ajuda os utilizadores a, não só interpretar os dados que a pulseira recolhe, como a fazer mudanças significativas e que podem ser monitorizadas todos os dias, a cada segundo.

Esta notícia levou-me a refletir com o meu colega de casa no dia que fui ver O Criador, de como acredito piamente que, no futuro, certas profissões terão realmente de se transformar para acompanhar aquilo que acontece já hoje. Na conversa surgiu o tema de que nada substitui o lado humano e a interação do mesmo. Sendo algo que concordo em pleno, não consigo deixar de pensar que: se estamos cada vez mais a recolher dados sobre a nossa condição física e até bem-estar psicológico, de que forma eu, por exemplo, poderia perguntar ao meu hipotético Personal Trainner movido a AI, como ter o corpo da celebridade X? Atendendo a que estes modelos de linguagem vão pegar nas informações que damos e varrer a internet à procura de estudos científicos, conselhos de profissionais e até dos PT que possibilitaram aquela dita personalidade a ter aquele corpo, eu poderia facilmente obter os resultados que queria sem contacto com outra pessoa.

Isto é belo, o potencial é enorme, mas igualmente assustador. E, acreditem, este cenário pode melhorar (ou piorar) se comprarmos uma subscrição do Chat GPT-4 e usarmos o plug-in do Canva, por exemplo. Podemos, com ele, pedir ao GPT para fazer um design ou até plano de marketing só com base no que dizemos. E, da mesma forma que diversos designers, argumentistas e outras áreas estão com o receio de perder palco para uma máquina movida a uma potência sobre-humana, acredito que estamos a cometer diversos erros.

Afinal, o que tem isto a ver com O Criador?

Vou dizer-vos: a ideia de O Criador não é algo inteiramente surpreendente com o que quer passar em ideias e valores, mas a construção do mundo que vemos, quer em segundo plano, quer em diversos momentos no seu enlace subtil com a história principal, levou-me a perceber como facilmente caminhamos para o que vemos no filme.

Com os robôs realistas movidos a IA e inteirados na religião e proteção do ser humano, foi um erro humano (claro), que levou a um acidente nuclear no filme. Isto é, sem dúvida, o que agora gera a controvérsia na nossa realidade. Como estamos a perder tempo ao não explicar às pessoas como tudo isto funciona e de como a IA tem de ser regulamentada a fundo. Apesar de isto se começar a fazer pela Europa e agora também nos EUA, tenho receio que, sendo um tema que poderá ser visto como tabu, este caia no esquecimento. Isto é perigoso, afinal sabemos que o fruto proibido é o mais apetecido.

No filme era a ideia que mais me vincava o pensamento. Especialmente ao ver os robôs a fazerem luto pelos seus pares e de como estavam numa guerra contra o ocidente que não admitia o erro humano que causou todo o conflito. Uma vez que facilmente vemos somente o fim sem ter atenção ao que o leva, continua a ser o ser humano o verdadeiro responsável por tudo.

Nunca admitimos a culpa

Custa ao ser humano falar do aquecimento global e admitir o seu papel nele. Não sendo algo muitas das vezes direto, o nosso impacto é sempre significativo. Com a IA e as suas potencialidades, se não forem delineados princípios éticos em cada área e mostrar abertura à conversa e sua utilização, rapidamente atiramos estas potencialidades para longe da vista e sem as realmente usarmos para melhorar a sociedade.

Consigo encontrar imenso potencial da IA nas áreas dos pequenos negócios, por exemplo, em que rapidamente podemos fazer crescer o nosso negócio em questões de semanas. Sem a necessidade de gastar grandes quantidades de dinheiro, as ferramentas que hoje temos são ótimas muletas. Porém, se as ignorarmos, acredito que cairemos no que aconteceu à energia nuclear e ao medo de que aconteçam novos acidentes. Mesmo quando atualmente temos novas investigações que permitem mitigar isso. Todavia, por ser um tema tão tabu em imensas sociedades, o progresso estagnou. Faz lembrar muito o que aconteceu com a própria Pandemia, onde diversos projetos existiam já para tentar uma vacina única contra a gripe mas, pela falta de interesse dos governos, foram engavetados. A Pandemia acabou por surgir para revelar como o investimento na inovação científica e acompanhada é sempre essencial como fator preventivo.

Em suma…

Não sei se no futuro iremos, como no filme, doar caras a empresas para vestirem robôs movidos a IA. Não sei também se as emoções serão possíveis de ser sentidas por estes corpos sintéticos. O certo é que com com uma evolução tão rápida, urge arranjar equilíbrio.

(A imagem de capa desta publicava o foi gerada por input meu no Canva, recorrendo a IA e à funcionalidade de expansão mágica.)

Resposta

  1. Avatar de Os filmes mais marcantes de 2023 – Diogo Simões

    […] história de O Criador é bastante expectável e já vos falei dela e da forma como vejo a inteligência artificial entrar na nossa sociedade. O que me faz tê-lo nesta lista é, sem dúvida, a construção narrativa, efeitos visuais, banda […]

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