Uma música de Natal ecoa pela sala à medida que vos escrevo isto. E, como pela primeira vez em talvez dois anos, consegui passear na minha cidade natal e apreciar as suas decorações. E, se em anos anteriores parecia que a quadra não se fazia sentir, este ano é tudo diferente. Não só a Praça Rodrigues Lobo perdeu a tenda gigante (finalmente) ao ser alocada para o Largo do Papa, junto à rodoviária como, neste espaço, nasceu ainda um pequeno corredor de cabanas com alimentos e produtos artesanais. Isto estende-se até ao Jardim Luís de Camões, onde cada árvore brilha mais do que a outra. Não bastasse, existem ainda balões de ar quente aninhados junto à estátua de Luís de Camões e que dão ao jardim quase que despido do outono uma nova variedade de cores.



É tanta coisa e tanta gente que ali estava, que pela primeira vez em anos, vibrei com as decorações de Natal. Especialmente após vir viver para o Porto, onde a cidade parece despida de emoção e de locais verdadeiramente mágicos. Em especial pela presença de trânsito constante, algo que em Leiria, nos fins de semana, não acontece, pelo corte de estradas selecionadas.
Este vale mágico, criado pela cidade que dizem não existir, fez-me refletir como, de fato, Leiria é talvez das poucas cidades onde, naquele gigantesco espaço, se passeia sem as preocupações da vida exterior. O castelo ajuda neste cenário, com cada ameia iluminada com LEDs e que nos recorda do eterno vigilante da cidade, lá no alto.




Chegado à Fonte Luminosa, foi com deleite que vi uma contínua enchente de pessoas que jantavam e outras que procuravam tirar fotos no já icónico letreiro da cidade. Aqui, além de uma bola gigante, temos três árvores de Natal. O mesmo acontece quando chegamos à Praça Rodrigues Lobo, que, com uma árvore de Natal central, já mais próxima do tradicional pinheiro, cada fio de luz abraça uma cabana recheada de apetitosos produtos. A vida na cidade e nas pessoas era tanta que senti ter renovado os votos com a quadra.
O verdadeiro significado do Natal começa em nós
Todos os anos, chegada a quadra, é comum encontrar em redes sociais e em círculos sociais como esta época provoca uma ansiedade potenciada pela oferta de presentes ou de contactos com famílias que, na verdade, pouco compreendem o conceito da palavra. Porém, foi ao andar pela cidade na passada sexta-feira que percebi como estava feliz só com a simples alegria dos outros e do aconchego do movimento. A ajudar, as luzes quentes e pulsantes que me faziam lacrimejar constantemente. Obviamente que estar a passear com a minha mãe ajudou, mas percebi que o Natal começa, realmente, em nós. Não temos de focar nos presentes (ou no consumismo, como parte da população gosta de chamar) ou de que vamos passar com elementos familiares que não nos dizem nada. Temos antes, talvez e para os que querem, focar no que tais movimentações sociais nos dizem do estado do mundo: como a união é possível, como a felicidade simples existe e como o cuidado com o outro é algo lembrado, não esquecido.



Isto faz-me recordar a própria postura que tenho em cerimónias religiosas de grande envergadura ou dos amantes de futebol em eventos significados. Em como me consigo comover com a felicidade dos outros, mesmo não acreditando ou estando inserido naqueles círculos. Porquê? Bem, porque é nestes momentos que vejo que a humanidade não está afinal tão perdida e que, como no Natal, a devemos simplesmente procurar e cultivar. Iluminar para que, aqueles que precisem, não sejam esquecidos. Falo, claro, da maior capacidade humana, uma exclusiva: a empatia.

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