Quando era mais novo estava constantemente a pensar no dia seguinte. Ansiava a chegada do Natal, do próximo encontro familiar e, obviamente, do que seria a comida no próximo dia, ano ou, quiçá, milénio. A minha ânsia era tanta que, aquando do lançamento daquele que é o livro de fantasia épica que mais me apaixona, O Nome do Vento, a minha madrinha escreveu na primeira folha algo que ainda hoje recordo. De como precisava de saborear o momento atual. E, deuses do céu, se em 2023 não usei esse mantra…
O hoje não volta
O dia de ontem já passou, o de hoje não voltará e amanhã chegará. Foi esta frase que dei por mim, não a dizer muitas vezes, mas a sentir em cada célula à medida que navegava por 2023. Deixei de estar ansioso por estreias de filmes que só ocorreriam anos depois, assim como a planear tanto a minha vertente literária ou até de conteúdo em redes sociais.
Nas relações, leituras e estudo foi igual, em que dei por mim a não ficar tão apreensivo pelo que queria fazer para, simplesmente, saber lidar com o que tinha à minha frente e reagir a isso. Saber que o hoje não voltaria e que teria de dar o melhor de mim. O que não fizesse ou conseguisse fazer saberia que haveria outra oportunidade, um outro dia, pelo que mais valia estar presente e a absorver tudo o que me era possível.
Esta filosofia parece fácil, mas sendo a vida passada a correr, a necessidade de abrandar e estar presente é o melhor. Isto foi válido tanto na vertente pessoal, onde comecei mesmo a procurar abandonar mais o telemóvel ao estar com pessoas, como lidar com o trabalho quando lá chegar.
Grandes responsabilidades
Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades e, com perceção do presente, ainda mais. Uma filosofia que acabou por estar em cada dimensão da minha vida ao longo do ano. A ajudar-me a navegar pelos trabalhos académicos e saber que terei oportunidade e tempo para outras coisas. A lidar com o trabalho com base no dia, no momento e no que lia dos outros para, no fundo, não me sentir frustrado ou com alguma ansiedade paranoica de que não cumpri um qualquer objetivo ou meta idealizada por mim.
Estando o mundo caótico, acabamos por ter a necessidade de prever qualquer alteração. É algo preciso para a sobrevivência. Mas, sendo os diversos cenários tão balanceados em prós e contras, ler o presente acaba por trazer alguma paz de alma e não nos deixa a suspender sonhos, planos ou ideais.

Comenta aqui