A importância de parar

Tenho estado, nas últimas semanas, a fazer o turno da tarde. A entrar pelas duas e meia da tarde para sair após as dez e meia da noite, quando acordo no dia seguinte a minha vontade é de não fazer nada. Dou por mim a puxar por uma manta e pensar como posso adiantar o meu manuscrito, como posso praticar programação ou, simplesmente, ler um livro. Acontece que, hoje, aceitei em pleno esta procrastinação que me tem afligido nos últimos dias e compreendi de onde a mesma vem. A constatação é bastante simples, mas para mim, estranha.

O estar sempre ocupado

Desde que me conheço como ser pensante, que tenho estado sempre ocupado. Quer esteja a estudar ou de férias, ou estudava, ou escrevia alguma coisa. Em muitos dos casos, fazia as duas coisas ao mesmo tempo, e mesmo agora, já no mundo do trabalho, dou por mim a gerir o tempo entre trabalhar, estudar, ler, gerir uma casa e escrever. Porém, no final de janeiro, algo mudou. Não só as aulas terminaram, como vieram os últimos exames. Os mesmos passaram, concluí todas as disciplinas e, após isso… nada!

O semestre terminou e dei por mim radiante com a possibilidade de poder retomar às minhas relações interpessoais, assim como a repor séries, filmes e livros em dia. Fiz isto com tanta paixão que agora, semanas passadas, sinto a exaustão realmente a abater-se no meu corpo. A ter a mente tão dispersa que compreendo como nos últimos anos negligenciei o meu descanso. Ainda continuo a ler, tenho escrito, mas, definitivamente, o meu pico foi no final do ano passado, quando numa semana escrevi mais de cem páginas e dei como terminada a história que desenvolvi. Tinha grande expetativa para a mesma, na verdade, era para ter saído em dezembro, mas, com os planos no mundo editorial a sofrerem alterações, o incentivo para a escrita, percebo agora, vem somente de mim. Já não tenho uma editora que me coloca prazos ou que manifesta interesse em que envie algo meu. E, estando na expetativa de iniciar um estágio curricular nas próximas semanas e ter de focar a atenção em escrever algo mais académico, tenho a sensação de que o meu cérebro me pede para parar. Para permitir descansar. Fazer algo diferente, sem cronograma ou qualquer expetativa.

A pausa é precisa

Talvez por ter crescido rodeado da ideia de que tinha de fazer sempre alguma coisa me esteja a influenciar agora. O certo é que, mesmo no meu trabalho, percebo como as crianças de agora pouco param. Não só não têm tempo para brincar, como acabam por procurar o escape mais fácil (telemóvel) para fugir ao acordar cedo, às aulas que terminam tarde e a trabalhos de casa, muitas das vezes, impensáveis de gerir num dia sem qualquer hora para descansar. Para abrandar. Sei que a sociedade ocidental tem muito desta culpa e, existisse mais oportunidade para nada fazer, mais felizes seríamos para, nos tempos livres, aproveitássemos realmente o tempo. Enquanto isso não acontece, infelizmente, caímos na rotina de ver uma hora livre como uma hora de recuperação. De aproveitar para fazer algo corrido e que, muitas das vezes, não tem impacto.

Eu quero que tudo tenha impacto. Quero que o descanso surta efeito, que seja de qualidade. Quero ler descontraído, sem olhar para um relógio. Quero escrever, sem pensar que tem de ser extremamente produtivo, caso contrário só voltarei a ter tempo e disposição sabe-se lá quando. Quero isto, mas para o ter, preciso de parar. Sei que é preciso. Sei que é necessário. É humano e todos o deveríamos fazer. Talvez assim perspetivássemos realmente quem somos, o que queremos e onde queremos estar.

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