Já escrevi sobre esta temática algumas vezes e, em cada uma, um foco diferente. Nunca dissequei por completo a ideia e, só recentemente, percebi o que a mesma significava para mim e o porquê de eu ser assim. Falo da forma como lido com a incerteza do futuro com coisas externas controláveis e que, de alguma forma, me permitem ter metas pessoais que, de alguma forma, se possibilitam por elementos que não controlo.
A tecnologia
Foi com a tecnologia que percebi isto e, para o explicar, irei mostrar-vos o raciocínio que me trouxe até aqui. O mesmo não é complexo e começou no início de fevereiro, quando estava receoso e ansioso pelo estágio. Não queria começar muito tarde e a falta de resposta e de agilidade da minha escola estava a desapontar-me. Ao navegar entre e-mails não respondidos e um trabalho desafiante, foi “num calendário” e nas redes sociais que filtrei a minha atenção. Para quê? Bem, eu não sabia quando este elemento da minha vida se iria concretizar, mas ao saber que uma atualização para o meu telemóvel chegaria em determinado dia, permitiu-me levar a um raciocínio interessante: o de que, independentemente de não saber no agora nada do estágio, muito provavelmente no dia da atualização teria já alguma coisa. Isto pode parecer confuso, e foi-o para mim, mas não passou de uma relativização do conceito de tempo que me permitiu focar num elemento previsto ao invés de algo que eu não influenciava.
Afinal, o que é isto?
Após escrever o parágrafo que explica a minha situação, fui ao meu amigo ChatGPT questionar que fundamentos na psicologia existem que sustentem o que passei e, inesperadamente (ou talvez já a contar, dado o meu historial com esta ciência), encontrei um conceito que quase sinto ser a minha verdadeira religião:
Ancoragem Temporal
“Este processo pode também ser visto como uma forma de “ancoragem temporal”, onde te agarras a um evento futuro conhecido para dar estrutura à tua perceção do tempo e dos eventos futuros. A ancoragem é um termo da psicologia cognitiva e economia comportamental que descreve como as pessoas dependem fortemente da primeira informação recebida (a âncora) ao tomar decisões. Neste caso, a data da atualização do telemóvel serviu como uma âncora no tempo, ajudando-te a relativizar a tua situação atual com o estágio, dando-te um ponto de referência para esperar por mudanças positivas.“
Isto apaziguou o meu sentimento de perplexidade, mas também compreendi que, até hoje, continuo a fazer isto. A tentar perceber quando determinado filme poderá sair, a perceber quando poderá ser uma viagem ou, até, um determinado evento ou espetáculo. Existe tanta coisa que não consigo controlar na vida adulta, desde as taxas de juro, as condições sociais, laborais ou até de passatempos pessoais, que ter estas “âncoras” me ajuda a navegar na vida e a não sofrer tanto com a expetativa. Julgo que se torna ainda mais fácil de perceber quando se começa a trabalhar e existe um fator salarial. Ao esperarmos pelo dia de pagamento, um elemento à partida controlável, estamos involuntariamente a agarrar-nos à conceção daquele dia que nos irá permitir desbloquear x, y ou z.
Ver o mundo é a resposta
Sinto que estamos tantas vezes perdidos em preocupações que, em muitos casos, nos esquecemos de olhar em redor. Não devendo o ser humano desvalorizar o que o deixa ansioso, acredito que existem tantos elementos que podemos desconstruir que, involuntariamente, a resposta chega-nos quando menos esperamos. Tenho descoberto muito isto na programação, ao perceber como nem sempre compreendo o que leio e interpreto no código que tenho diante de mim para, no dia seguinte e após uma noite de sono, perceber como existiram caminhos que não pensei ou explorei.
Sinto, com isto, que é muito fácil ver o mundo e opinar sobre ele, mas interiorizar tudo e perceber que não controlamos tudo quando queremos ou como queremos, acaba, pelo menos para mim, ser chave em desenlaçar a vida sem a expetativa do que não controlo.

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