Ideias erradas que se retiram do mercado editorial americano

Enquanto autor, era comum pensar que ” lá fora era mais fácil “. Acreditava que publicar em inglês, num mercado tão prolífico em êxitos como o americano, era o sonho. Sendo maior e com maiores editoras, arranjar uma casa para ter um manuscrito editado era facílimo. Hoje, já não acredito nisso. Sei que as balizas são outras e que a realidade demonstra, na verdade, algo completamente oposto. Porém, por mais anos e conversas que passe com outros escritores, esta ideia ainda existe. Errada e sem corresponder à realidade, quero realçar alguns pontos para ajudar novos autores.

O mercado é maior, é mais fácil(?)

O mercado editorial em Portugal tem apresentado um desempenho notável. De acordo com dados da GfK, que audita as vendas de livros no país, em 2023 foram vendidos 13,1 milhões de livros em Portugal, gerando uma receita de 187,2 milhões de euros. Isso representa um aumento de 7% em relação a 2022. Além disso, Portugal ocupa a terceira posição mundial em vendas de livros e a quarta em crescimento de receita, com um aumento impressionante de 2,6% nas vendas de livros em volume e 6,5% na receita. Esses números refletem o interesse contínuo dos leitores portugueses pela literatura e o sucesso do mercado editorial no país.

O mercado editorial nos Estados Unidos é um dos maiores e mais influentes do mundo. Em 2023, as vendas de livros nos EUA totalizaram $25,9 bilhões. Isso inclui vendas de livros físicos, e-books e audiolivros. A indústria editorial americana é diversificada, com uma ampla variedade de gêneros e autores, e é impulsionada por grandes editoras, bem como por autores independentes.

Com um mercado gigantesco, estes dados que vos mostro desvendam, desde já, outro dos pontos desta publicação. No entanto, aquilo que se torna claro é a quantidade de vendas geradas do outro lado do Atlântico, que, logicamente, corresponde à larga escala do seu território. Num momento em que o mercado português vai recuperando algum fôlego, ainda é difícil, e provavelmente impossível, alcançar parte do que acontece lá fora. No entanto, para não me desviar do tema, apesar de se vender/ler mais lá fora, isso não significa que seja mais fácil. Na verdade, existe sempre um fator crucial na equação que os autores portugueses (eu incluído) se esquecem de adicionar: o número proporcional de manuscritos enviados.

Em 2023, havia aproximadamente 49.500 escritores e autores nos Estados Unidos. No entanto, o número exato de livros originais publicados por autores americanos pode variar significativamente, pois inclui tanto livros tradicionais publicados por editoras quanto livros auto-publicados. Anualmente, entre 500.000 e 1 milhão de novos livros são lançados nos EUA, incluindo os de autores independentes. Em 2021, houve cerca de 2,3 milhões de novos livros auto-publicados nos EUA, marcando um declínio em relação aos anos anteriores. Portanto, o cenário literário nos EUA é dinâmico e diversificado, com uma ampla variedade de obras publicadas por autores americanos.

Com um número tão elevado de originais publicados, a ideia de que publicar em inglês é mais fácil é, na verdade, bastante ilusória e quase utópica. Não obstante, o mercado estrangeiro utiliza muito a figura de um intermediário neste processo: um agente literário. É este que acaba por ser fundamental e, consequentemente, terá as suas recompensas na hora de conseguir concretizar a venda de um original. É um pouco como um agente imobiliário.

O peso e prestígio da publicação tradicional é diferente(?)

Se em Portugal, nos últimos anos, a ideia da publicação tradicional foi mudando, nos EUA essa mudança aconteceu há vários anos. Desde os valores brutais de livros independentes até ao crescimento de e-books e audiobooks, em Portugal estamos ainda longe de ter uma publicação independente robusta. No entanto, são diversos os autores que começaram e ainda publicam por esta via. Desde Colleen Hoover até Christopher Paolini, cuja publicação tradicional do livro “Eragon” aconteceu anos depois da sua publicação independente, são cada vez mais os autores que demonstram usufruir desta liberdade e controlo no momento da publicação. Com vendas garantidas nas diversas plataformas, a ideia de que apenas a publicação tradicional conta ainda é prevalente por cá.

Apesar de surgirem diversas alternativas, como os modelos vanity ou híbridos, a escolha da autopublicação acaba por ser a mais expressiva, o que demonstra o conhecimento dos autores americanos na hora de escolher o caminho a seguir.

Há maior variedade lá fora (?)

É frequente pensar que um livro seria melhor recebido no exterior. No entanto, o mercado, seguindo “modas”, entra todo num mesmo ciclo. Se acrescentarmos o facto de que, em muitos estados americanos, começam a banir determinadas temáticas nos livros, a ideia de que a variedade e aceitação lá fora é maior do que em Portugal é errada. O trabalho das editoras americanas tem sido expressivo nesta luta, mas ainda existem livros banidos, especialmente com temáticas LGBT+.

Falta uma coisa…

Viram todos os pontos de interrogação? Pois bem, não só significa que estão absorvidos em cada palavra escrita, como estão preparados para perceber que, ao falar de um mercado, essas tendências são flutuantes. Apesar de várias não mudarem tão cedo, muito devido à dimensão do nosso país, que se traduz não só em menor volume de negócio, mas também em menos espaço para editoras, outros pontos merecem a nossa consideração na hora de avaliar o nosso trabalho, mercado e, eventualmente, sonho.

É comum remoer nestas ideias. É mais confortável e, de certa forma, pode ser até comodista. No entanto, apesar do conforto emocional, desvia-nos do foco das ações que podemos seguir para tornar o nosso manuscrito mais atrativo e, quem sabe, abrir algumas janelas ou portas num mercado pequeno. A ideia de um único método de edição pode também ser um obstáculo para novos talentos que, presos à ideia do tradicional, talvez percam a oportunidade da autopublicação. Em suma, por mais justificações que existam, nem todas são válidas e, em qualquer caso, o maior desafio no meio da resignação da comparação é seguir em frente.

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