De Assistente Social a Programador: refletir sobre a minha jornada

Não sei quando sairá esta publicação. Pode sair mal a termine de rever ou, simplesmente, quando achar que estou psicologicamente preparado para a publicar. O certo é que, quando acontecer, provavelmente já abandonei o que foi o meu primeiro emprego ao fim de cinco anos e devo já ter abraçado o que me acolheu no tempo de estágio. São areas completamente opostas, em realidades diferentes, o que me levou a refletir a respeito da minha jornada académica e profissional e de como, atualmente, o sistema continua sem funcionar.

De assistente social passo a programador informático

Em boa verdade, nunca exerci como assistente social (tirando o estágio da licenciatura, claro), pelo que dizer que mudo de Serviço Social para Programador é errado já que, na realidade, mudo de tutor (ou educador social ou o que quer que venha no recibo de vencimento e que não corresponde ao que fazia) para Programador. A mudança é gigantesca. Muitas pessoas me perguntam o motivo: se é pelo dinheiro da área ou se já gostava. A resposta, à crise que existe no nosso país e ao futuro que gostava de levar, é um gigante sim às duas. Não que espere receber com um curso técnico superior um valor gigantesco, mas espero um emprego em que a frustração acontece mais direcionada a uma máquina e a uma agenda do que aos problemas e crises sociais de pessoas, instituições e do país.

Sempre adorei a tecnologia, sou dessa área, na verdade. Escolhi Serviço Social após falhar a Psicologia e, honestamente, continuo sem me arrepender. Adoro a área, adoro o refletir a sociedade e, sobretudo, conseguir, de alguma forma, aplicar à realidade. Sempre quis trabalhar com jovens, pelo que o mestrado nessa área me ajudou. O certo é que, ao fim de cinco anos, com uma desvalorização na área social, políticas e medidas que não concordo, continuar na área pelo desgaste psicológico que a mesma me dá face aos ganhos pouco expressivos ao final do mês, acaba por não ser suficiente. Não me interpretem mal: adoro os meus jovens. Adoro a mudança que vi em muitos e a forma como eu e a minha equipa contribuímos para isso. Mas um educador/técnico/assistentes social/psicólogo/etc., é também humano e, se não existe equilíbrio, o que começamos a dar começa como que a sair da nossa alma e, a longo prazo, é penoso. Vi e vejo isso em diversos colegas e sei bem que não quero chegar a esse estado.

Foi por isso que, com o incentivo dos meus pais e o meu gosto por aprender, decidi aventurar-me numa área que me chamou sempre à atenção: a informática e programação. E, com diversas aulas, toneladas de trabalhos, de vídeos no YouTube, de aplicações de programação e até o meu amigo ChatGPT, consegui elevar o meu conhecimento ao ponto de saber que gosto da área, que quero aprender mais com ela e, sobretudo trabalhar na mesma. A experiência no estágio ajudou nisso e o facto de ficar a trabalhar na empresa que me acolheu acabou por me dar alento para esta mudança. Para me dar fins de semana e feriados em que não trabalho e uma valorização pela vida privada maior, dedicando-me mais ao que quero: voltar a estudar e prosseguir para a licenciatura, ao mesmo tempo que, ao sentir-me mais leve, espero, escrever com mais regularidade e, claro, dar-me de forma diferente à nova empresa.

O mundo muda, mas o ensino não está a acompanhar

Sei que tenho a sorte de uma rede de apoio que me permite esta ginástica e, entre ter abdicado, por dois anos, de tempo, ao trabalhar e estudar ao mesmo tempo (mesmo enquanto no estágio), percebi algo que já no mestrado me apercebi: com tanta mudança e pessoas a querer fazer algo pelas suas vidas, o nosso país não consegue dar resposta.

A primeira constatação foi aquando da inscrição neste curso profissional. Queria candidatar-me a uma bolsa e, tendo uma casa, me foi impossibilitado por ser considerado património. Ou seja, não contava o facto do que recebia, de estar solteiro e com uma prestação ao banco que subia com o avançar dos juros na Europa. Nada disso interessava e, logo aí, fiquei revoltado ao imaginar a quantidade de pessoas que querem tentar a sorte de mudar de área e que, numa ajuda preciosa, ficam barrados. Isto parece-me contraproducente face à transformação do tecido económico e social e, numa era da tecnologia e inteligência artificial, o país beneficiaria cada vez mais de empregos, ou mais tecnológicos ou, na verdade, mais humanos, já que a possibilidade de esses serem substituídos por “máquinas” é muito mais remota.

A segunda constatação foi o sistema de ensino em si e de como, apesar de depender de escola para escola e ter plena consciência de que estou a generalizar bastante, para quem trabalha ou se quer empenhar, nem sempre os institutos têm as melhores práticas ao partilhar, por exemplo, materiais antigos de estudo, como testes e apontamentos, algo que tinha em Leiria, no IPL. Isto dificulta quando se tem de faltar a alguma aula e alguns professores se limitam a ignorar.

Por último, e a mais ridícula quando comparada com países europeus, é que o estágio, sendo de 750 horas, não é renumerado de forma alguma. Com alguns partidos políticos a terem esta medida nos seus planos (acho que só um, na verdade), é triste que, novamente, quem está sozinho ou sem apoio financeiro, dificilmente irá sobreviver a todo o processo sem se ter destruído. Fica insustentável e demonstra como, no dia a dia, pouco se reflete no nosso sistema de ensino e parece que ninguém olha, realmente, para o que pode ser o futuro se este funcionar corretamente.

Arrependo-me de alguma coisa?

Tenho-me questionado bastante neste ponto e a resposta é um sincero não. Já me perguntei se não poderia simplesmente continuar na área social e mudar, simplesmente, de público-alvo ou de função, mas com vagas tão limitadas e condições desumanas, acredito que voltaria ao mesmo. Se fecho as portas à área? Não, de todo. Sei que a minha formação e experiência irão, para sempre, influenciar as histórias que conto e quero contar, ao mesmo tempo que poderei ter, quiçá, uma maior facilidade na exposição e empatia no mundo corporativo e de escritório. Ou seja, quero mesmo que estas áreas sejam um complemento e que, talvez num futuro, me permite até desenvolver melhores programas ou sistemas com base nas necessidades reais das pessoas(utilizadores) ao vê-las como humanas e não como meros utilizadores.

Porém, se realmente soubesse o que sei hoje, teria saído da norma e, ao invés do secundário, talvez ter optado logo por um curso profissional. Na minha, altura estes eram extremamente mal vistos, onde a universidade era promovida a todo o custo. Atualmente, onde ter mais formação, ou sequer um mestrado, parece ser castrador de uma vaga de emprego, gostaria de ter tido o conhecimento de hoje para me ter aventurado em algo que realmente gostava. Mas não sabia, e é por isso que, quase 1200 palavras depois, vos continuo a escrever. Para, se estiverem na mesma situação, não se governem pela pressão da sociedade quando o tecido empresarial nem sempre a acompanha.

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