Estudar na idade adulta: uma nova perspectiva

Se há uns anos me dissessem que voltaria a estudar, provavelmente teria rido na vossa cara. Com um emprego efetivo na área social e uma casa para pagar ao banco, por mais que gostasse de aprender, pensar em abdicar de parte do meu tempo livre parecia impossível. Mas mudei, cresci e, de repente, comecei a perceber que estudar se tornava cada vez mais “acessível” no acesso. Não só em cursos profissionais, mas também em certificações e plataformas de formação online, explorando áreas que nem sabia que existiam.

Isto levou-me, mais ou menos durante a pandemia, a refletir sobre a minha vida e a constatar que não queria acomodar-me. Queria continuar a desafiar-me e evitar o arrependimento, daqui a cinco ou vinte anos, por não ter aproveitado a minha juventude e energia para explorar algo diferente e novo.

Não tenho, efetivamente, 30 anos. Estou a alguns meses disso, na verdade, mas consigo já dar-vos ums lamirés do que é tirar um segundo curso e de qual o impacto na perceção dos outros.

É, realmente, fácil voltar a estudar?

Resposta rápida: sim e não. Se não tiverem formação superior prévia, a entrada é fácil em termos burocráticos e no preenchimento da candidatura. Especialmente no que toca a bolsas ou na possibilidade de, após um curso profissional, como fiz, prosseguir para uma licenciatura. A candidatura pode ser mais vantajosa com esse diploma recente do que com um mestrado, como foi o meu caso.

Contudo, isso não foi a única lição que aprendi, já que não tive direito a bolsa. Como já tenho casa, que é considerada património, pouco importa se a prestação da mesma aumentou 200%. O mesmo se aplica ao estatuto de trabalhador-estudante, do qual acabei por fazer pouco uso. Felizmente, contei com uma boa compreensão por parte da instituição e dos meus colegas, o que me permitiu sair mais cedo e não perder aulas. O facto de ter um horário rotativo também ajudou, e abdiquei do único benefício do estatuto: em dias de exames ou frequências, tinha direito ao dia anterior e ao próprio dia da prova de folga. Se fosse hoje, utilizaria esse direito, e agora, na licenciatura, pretendo usufruir do mesmo.

No entanto, no caso da minha escola, o estatuto não garante uma verdadeira isenção de faltas, o que, em várias disciplinas, pode prejudicar o método de avaliação mais vantajoso para nós. Isto complica a vida de quem trabalha, uma vez que o grau de dificuldade dos exames tende a ser superior, quando, na verdade, não deveria ser.

Ou seja, estudar após os tempos da sociedade é fácil em situações onde o nosso regime laboral permite flexibilidade, mas, em todos os outros casos, pode ser extremamente penoso. Sem uma rede de apoio ou bons colegas universitários, pode ser uma jornada bastante difícil.

Existe realmente interesse por parte das instituições de ensino?

Ao longo destes anos, percebi que, por mais que existam horários diurnos e pós-laborais, os serviços administrativos das escolas nunca acompanham essas ofertas formativas. E, por mais que as instituições gostem de se gabar de ter os seus alunos empregados (e de também lucrar com isso), é vergonhoso que, por exemplo, uma secretaria feche às 18h, precisamente quando o horário pós-laboral começa. Além disso, questões relacionadas com a matrícula têm de ser tratadas presencialmente, o que exige, mais uma vez, uma grande flexibilidade da parte da nossa entidade empregadora para podermos continuar o percurso académico.

Tenho consciência de que nunca estamos completamente satisfeitos e, sem exigir que haja funcionários de plantão a toda a hora, considero de extrema importância que haja maior coerência por parte das escolas, dos professores e dos serviços. A informatização dos sistemas, a simplificação da burocracia e dos processos inerentes seriam passos fundamentais. Poderá a IA ajudar nisto? Espero que sim, pois a ginástica necessária para conciliar os estudos é, para muitas faixas etárias e em determinadas cidades, um desafio.

O outro lado da moeda

Tudo isto é bonito e maravilhoso, com arco-íris para aqui e para ali, mas a parte que raramente se reflete no “giro” que é aprender e crescer é o custo para a vida privada e a nossa capacidade de, no dia a dia, gerir a pressão psicológica, aumentada por nós mesmos devido ao compromisso que assumimos, e o desgaste físico. Se juntarmos a isto o trabalho, que começa às 9h, em muitos dias da semana só chego a casa depois das 23h. A capacidade de atenção e concentração precisam de ser reeducadas, tal como a memória, para testes que acabam por acontecer em horários noturnos.

Estudar é possível e talvez mais “acessível” hoje em dia, em termos de variedade de cursos e de locais onde os podemos frequentar, mas, sem dúvida, exige que façamos compromissos. Atrevo-me a dizer que o mais importante é a expectativa que colocamos em nós mesmos: saber os nossos limites, escolher as cadeiras certas, optar pelo método de avaliação mais adequado e, claro, decidir com quem trabalhar nos projetos de grupo. Este último ponto pode ser extremamente desafiador, especialmente quando somos dos mais velhos da turma e os nossos colegas, com dez anos a menos, têm outras prioridades ou encaram-nas de maneira diferente da nossa.

Nesta correria, haverá, sem dúvida, realização pessoal e a satisfação de saber que, a cada cadeira concluída, vale a pena. Não tanto pelo cansaço acumulado, mas pelo facto de mostrarmos a nós próprios que é possível: que continuamos frescos, capazes de voltar aos estudos, de memorizar e de assistir a aulas enfadonhas onde o discurso dos professores é interpretado de forma completamente diferente daquela que tínhamos quando começámos o nosso percurso. A perceção dos outros também pode ser uma fonte de entusiasmo, pois se alguns me consideram louco por voltar a estudar, será gratificante poder mostrar que, de facto, irei conseguir. A que custo? Bem, espero contar-vos daqui a dois anos.

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