Parece que já se passou uma eternidade desde a última vez que vos falei de filmes. Na verdade, sinto que faz ainda mais tempo desde que trouxe outros temas para o blogue. Poderia culpar a falta de tempo, mas seria uma mentira. A verdade é que, ao priorizar a minha vertente literária — com tantas histórias escritas nos últimos anos —, acabei por perder, honestamente, a paciência para destilar mais latim. Poderia pedir desculpa por isso, mas antes tenho de o fazer a mim mesmo, por não ter conseguido encontrar um equilíbrio. Curiosamente, o filme de que vos venho falar aborda, precisamente, essa questão. Não de blogues, claro, mas do equilíbrio entre o senso comum e aquilo que é, efetivamente, a religião. E, acreditem, o filme é brutalmente cru nesse tema — e eu adoro isso!
O básico
Com Hugh Grant como destaque central, é pela fé das duas protagonistas — as atrizes Sophie Thatcher e Chloe East — que o filme se move num compasso digno de mestria, algo que parece raro no cinema atual. Se partia com a expectativa de encontrar um filme de terror convencional, foi precisamente este ritmo pausado e o seu desenlace que me levaram a apreciar a construção meticulosa. Trata-se de um suspense e thriller fenomenais que exploram uma ideia aparentemente básica, mas profundamente complexa: a religião e as crenças de cada um. É nesta questão que quero focar e refletir convosco, agora que já digeri o filme e a sua realização.
A religião
O que é, afinal, a religião? Uma crença popular? Uma moldagem da cultura de cada país? Será a fé em algo maior o que nos ajude a processar a vida quotidiana? E qual será a religião mais popular? Porque é que umas são tão predominantes enquanto outras permanecem quase invisíveis? Como surgiram tantas religiões e por que razão tentam tantas vezes sobrepor-se umas às outras? E ainda: será que a religião mais popular no Ocidente — ou a mais presente — é completamente original, ou será apenas uma repetição de narrativas já contadas por civilizações antigas?
A resposta a cada uma destas perguntas pode ser difícil, pode ser ficcionada, ou até moldada por perspetivas pessoais e coletivas. Contudo, é exatamente esse questionamento que serve de mote para percebermos algo extraordinário: a forma como, efetivamente, lidamos com tudo isto no nosso dia a dia.
Se têm acompanhado o que escrevo nos últimos anos, saberão que, de tempos a tempos, partilho convosco os meus pensamentos sobre a religião. E, ao ver este filme, deparei-me com algo que nunca tinha considerado de forma tão clara, apesar de ser incrivelmente simples: a grande religião (e aqui aviso-vos, vêm aí spoilers) é o controlo. A capacidade que o ser humano tem de levar os outros a acreditar numa determinada coisa.
Isto, notem, é particularmente visível — talvez menos pela religião nos dias de hoje e mais pela política — na forma como partidos, corretamente rotulados como de extrema-direita, surgem com ideias simples, as reformulam e as apresentam, exatamente como a história nos mostra em relação às religiões. Um discurso que, com a facilidade atual de disseminar notícias falsas, chega a um público mais vasto e, de repente, transforma-se “em religião”. Em crença. Mesmo quando aqueles que acreditam acabam por enfrentar situações de enorme dificuldade ou precariedade sob esse regime/religião/crença. Porque, afinal, permitiram-se acreditar — e é aí que agora reside a sua fé.
Encontramos isto todos os dias
stes são temas extremamente difíceis. Não apenas pela complexidade da discussão, mas também pela forma como os processamos. Enquanto humanos, estamos “programados” para procurar um significado, seja ele terreno ou transcendente. Precisamos de respostas que nos permitam dormir à noite.
Com a facilidade com que uma rede social nos controla — alimentando o vício no ódio, no negativo, na negação —, onde os lucros se sobrepõem a qualquer princípio e os filtros acabam por cair, somos, diariamente, controlados por alguma coisa. Vivemos, talvez, no meio de uma religião das compras compulsivas? Do consumo desenfreado de séries, da leitura de certo tipo de livros, ou da dependência de um determinado conteúdo em vídeo? Sim, claro que sim.
E foi exatamente isso que me fez adorar este filme: como pegou num conceito elementar, como a religião e a sua história, e, para os mais atentos e reflexivos, nos levou até aqui. Até esta procura por significados mais amplos. Porque, no final do dia, o próprio filme fez isso comigo: controlou-me.

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