2024: um ano inesperado

Ainda falta até ao final do ano, mas de uma coisa sei: 2024 foi um ano de surpresas. Não só a nível profissional, como a nível pessoal e até ligado à minha escrita. O engraçado? Como nada disto acabou por ser planeado, o que acaba por dar asas à tese que tenho há muito tempo.

O lado pessoal

O meu “eu”

Não vou mentir, muitas das mudanças do meu lado pessoal vieram do crescimento com o mundo do trabalho. De perceber o que quero fazer na vida privada, como o quero equilibrar e usar as minhas horas de descanso. E, das primeiras lições que tive diretamente este ano foi que, se estava numa instituição onde tinha de transmitir normas e valores a jovens, não o queria fazer isso na vida privada para as pessoas que não o querem. Ou seja, aprender a validar-me a mim, a minha qualidade enquanto amigo e pessoa, e a dar o meu tempo efetivamente a quem dá valor a isso. A perceber que nem todas as pessoas que entram na nossa vida têm de ficar porque, se não estão num determinado estado mental ou social que permita uma relação crescer, quem acabará por, de certa forma, sofrer, sou eu. Era eu.

Esta realização é básica para muitos, eu sei. Mas reparem, nos últimos anos vivia na dicotomia entre a minha formação entre assistente social e elevadas doses de empatia. Sinto que, de alguma forma, 2024 me permitiu arranjar um equilíbrio há muito preciso e esta foi uma das mudanças inesperadas.

Os estudos

Já vos falei disto, mas se alguém me dissesse há uns anos que estaria a fazer uma nova licenciatura a probabilidade de acreditar era extremamente reduzida. O certo é que, com um curso técnico profissional que me permitiu sair do trabalho antigo e um conjunto de equivalências que compensavam este esforço adicional de dois anos, ingressar na licenciatura de engenharia informática tem sido um processo de descoberta e de validação pessoal, sabem? Perceber que, perto dos 30 anos, continuo capaz de aprender e de absorver as coisas até de melhor forma. A perceção e predisposição que tenho é completamente diferente, e isso acaba por ser um reforço indireto das minhas capacidades. Ajudou também ter recebido um certificado de mérito (e uma rosa, não esquecer) das minhas notas no cTeSP, o que ajudou esta pessoa insegura validar as suas escolhas.

O trabalho

Sempre ambicionei ter um horário de trabalho padrão. Ou seja, de segunda a sexta com os fins de semana. E, tendo conseguido ficar no meu lugar de estágio, ter mais tempo nos fins de semana tem sido uma bênção. Uma que impacta o próprio trabalho, ao conseguir ter dias fixos para descansar e trabalhar em equipa e com pessoas que gosto; como poder ir mais vezes a Leiria. Na verdade, esta nova flexibilidade permitiu-me estar mais tempo com os meus amigos, os meus familiares e até ir a Vigo e Paris. Tudo isto sem estar a sofrer com turnos e trocas de folga.

Habituar-me à rotina de escritório foi igualmente desafiante. Mas, após anos a lidar com o calvário de uma rotina desgastante, percebi que, para alguém como eu — que não consegue parar quieto —, esta nova estrutura acaba por oferecer mais espaço para canalizar a minha energia e reinventar o próprio dia a dia. É como se essa rotina funcionasse como uma força, permitindo-me ter mais foco no trabalho e encontrar novas formas de resolver os desafios que surgem.

Esta experiência contrasta muito com ambientes dinâmicos e trabalhos por turnos, que, embora exigentes, acabam por ser extremamente esgotantes. Neles, os níveis de energia facilmente se comprometem em todas as vertentes. Refiro-me, claro, ao meu caso, ao que vivenciei nos últimos cinco anos e à forma como aprendi a lidar com essas situações.

A escrita

Em 2024, pensei em desistir da escrita. Mesmo depois de ter publicado O Amigo, essa ideia continua a pairar. As razões são várias: desde ter ficado sem editora até às transformações do mercado editorial, questiono-me se, nesta nova rotina, ainda tenho tempo e disposição para escrever.

A verdade é que ainda quero escrever. Tenho um manuscrito com um ano para rever, uma outra história, num género novo, que quero muito terminar, e a ambição de escrever um romance ambientado numa instituição. Mas, olhando para tudo o que aconteceu este ano, continuo sem saber que rumo seguir.

Este é o ano que marca dez anos desde a minha estreia na publicação literária, a nível comercial. Enquanto refletia sobre isto, surgiram alguns momentos que me deram algum alento: fui convidado para dois eventos literários em Lisboa e, recentemente, fui reconhecido na Worten, enquanto pagava. São pequenas validações que surgem enquanto a minha cabeça duvida da minha continuidade. Pergunto-me se há espaço para a escrita nesta rotina de trabalho e aulas.

Será que escrever isto aqui me ajuda? Será que deitar cá para fora estes receios faz alguma diferença? Não sei. Mas há uma coisa de que tenho a certeza: quero muito retomar o blogue. É o espaço que mais consigo controlar e talvez seja o porto de abrigo que os blogues sempre representaram para mim.

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