O poder perpétuo de rever Harry Potter

O sol bate na janela da minha sala de estar, em Leiria. Na televisão, os meus familiares assistem a O Conclave. Ao meu lado, repousa uma chávena de chá, a ajudar-me a ultrapassar estas horas em que controlar o estômago se torna um verdadeiro desafio. Na minha mente, os filmes de Harry Potter continuam a ressoar após os ter revisto. É uma tradição anual, mas, este ano, algo é diferente. Após rever os filmes e ter feito tudo para o conseguir, sinto um peso mais intenso: a nostalgia.

Refletir sobre estas temáticas parece estar gravado no meu ADN: o tempo, o passado, o nosso eu, o “nunca dizer nunca”. Já partilhei como foi crescer com os meus primos e o impacto que isso teve na forma como me desenvolvi. Agora, neste ano que marca o primeiro, após muitos, em que passo o dia 25 de dezembro por completo com a minha família, percebo a dimensão do aconchego que procuro nos filmes. De forma surpreendente, recordei-me dos pensamentos que tive ao sair do cinema, após assistir a Harry Potter e os Talismãs da Morte – Parte 2.

“E agora?”

Quando os créditos finais do último Harry Potter foram projetados, lembro-me de pensar: E agora? O que vou esperar todos os anos? Essa expectativa que me acompanhava, o que será feito dela? Como posso continuar a crescer quando estas personagens, com quem cresci, desapareceram?

Hoje, ao terminar de rever o filme na madrugada, não consigo evitar um sorriso ao lembrar-me da inocência que temos enquanto jovens e de como, tantas vezes, tudo pode parecer o fim do mundo – especialmente quando enfrentamos mudanças que se traduzem em algo que termina, de vez. Sei que poderia voltar a ver os filmes – não com a facilidade que temos hoje –, mas seria diferente.

Ao escrever estas palavras, não consigo evitar um sorriso nos lábios. Penso em como só este ano a nostalgia me venceu com estes filmes e em como, na verdade, diariamente nos despedimos de tantas coisas. Dizemos adeus a um nascer do sol, aos nossos colegas de trabalho, ao pôr do sol – apenas para, no dia seguinte, voltarmos a repetir. Reiniciamos um dia que, inevitavelmente, nunca mais irá regressar.

Viver com esta ideia em loop pode ser assustador, especialmente se pensarmos nela em demasia. Mas a nostalgia existe por uma razão. E, se há algo a que dou graças este ano, neste Natal, é a tudo o que consegui saborear. O simples facto de estar aqui, a escrever no blogue, enquanto observo a dinâmica dos meus pais e primos (enquanto os outros já foram dormir).

Percebo como a nostalgia se infiltra em tudo, como pode, por vezes, impedir-nos de avançar e alimentar a nossa ansiedade. E percebo, em mim, um medo específico: o receio de um novo dia sem algo que, antes, dava como certo.

Respirar

Sei que a rotina destes últimos três anos me desgastou. A noção de respirar e abrandar nem sempre foi algo que respeitei em mim. Agora, ao deixar cada uma destas palavras enraizadas no blogue, quero lembrar-me – e obrigar-me – a respirar.

Desejo que este Natal vos tenha permitido exatamente isso: saborear a vossa própria vida. Que, neste inverno atípico e frio, consigamos todos respirar em pleno, sem sentir que o que nos preenche os pulmões é um punhado de agulhas da realidade. Que a nostalgia seja um abraço aconchegante neste dia onde as relações nos podem passar em retrospetiva e que, se também estiverem a rever Harry Potter, pensemos em como crescemos ao invés do dilema de o fazer. Que este rever perpétuo seja um lembrar de tudo o que nos levou até aqui.

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