O que é O Amigo?
É isso que estão a perguntar? Então, efetivamente, fiz um excelente trabalho!
Fora de brincadeiras, e para os que não viram as minhas publicações no blogue ou redes sociais, O Amigo é uma história de ficção jovem-adulto que lancei em novembro do ano passado (2024). Durante o mês que antecedeu o seu lançamento, promovi intensamente a história com jogos, questionários e citações. Até fiz alguns reels, mas depois disso algo aconteceu: deixei de a promover.
O que me aconteceu?
Falei muito disto ao longo do ano passado e, agora, sinto que toda essa reflexão chegou a um culminar: estou cansado. Parece estranho, especialmente para mim, que estou sempre a fazer mil e uma coisas ao mesmo tempo. Mas, ao promover O Amigo, percebi que, entre o trabalho e os estudos, existia algo que saía prejudicado: eu. O meu tempo livre.
Sempre vos disse que nunca parei de escrever e que, mal terminava um projeto, começava outro. Mas, ao preparar a publicação de O Amigo, percebi o quão exaustivo é ser independente. Não se trata apenas de promover a história para recuperar o investimento na revisão e edição. Há também o acompanhamento contínuo que um livro exige. E, com trabalhos académicos a aproximarem-se, deixar esta vertente de lado pareceu-me o mais lógico.
Desistir da escrita?
Este pensamento tem sido recorrente e, embora saiba que não quero desistir da escrita, este ano vou, sem dúvida, abrandar. Na verdade, desde que revi O Amigo no ano passado, não escrevi nada para os projetos em curso. Além disso, há mais de um ano que um manuscrito aguarda revisão, fechado no meu computador.
Pensei que isto me traria mais ansiedade – o receio de não estar a aproveitar o que já escrevi. Mas, na verdade, sinto-me bastante em paz e até descansado. Saber que tenho uma história à espera do momento certo, quando tiver tempo e, efetivamente, me apetecer voltar a ela, dá-me um certo conforto.
A publicação
No ano passado, enviei um manuscrito antigo para algumas editoras. Quero realmente dar tempo a esse processo e ver até onde isso me leva. Sinto que preciso de deixar esse tempo passar para perceber até que ponto me dedico ao que realmente quero.
Descobri também que não me quero conter. Com O Amigo, permiti-me tocar em temas que antes, de forma literária, não tinha explorado. O mesmo aconteceu com o conto erótico que comecei a escrever no ano passado, ao libertar-me de amarras criativas e contar histórias sem pudor. No entanto, isto também me levou a uma perceção desanimadora.
O mercado
Não, não vou falar do nosso mercado em si, mas antes do seu panorama geral e de como as diversas crises sociopolíticas têm posto em causa a voz de minorias. Escrevendo eu histórias com personagens gays, apercebo-me de que, em Portugal, ainda existe pouca procura nesse campo e, na verdade, as editoras pouco apostam. Apesar de termos tido, nos últimos dois anos, uma forte publicação de literatura jovem-adulto LGBT, o facto de a mesma ter como fontes primárias duas chancelas de duas editoras, acaba por nem sempre ser possível a publicação de mais, e de portugueses, num mercado que parece falar pouco destas histórias.
Com diversos elementos de censura a surgir aqui e acolá, escrever estas histórias perante um mercado literário incerto é desanimador. Não deveria ser, claro. Deveria continuar e lutar, mas quando as próprias plataformas onde as editoras nos exigem que promovamos o nosso trabalho se viram contra nós pela falta de moderação e de filtros ofensivos, a quebra na moralidade acaba por surgir. Porque somos livres e vivemos em democracia, mas se eu quiser sair de uma plataforma como protesto perante as suas políticas, não poderei, porque o mercado (que deveria ser livre) não o permite.
É profundo? É complexo? Sem dúvida. Mas tenho plena consciência de como funcionam os algoritmos atuais e, acreditem, ficar pior é sempre possível.
Voltando a O Amigo
Estou contente com o que experimentei ao escrever O Amigo. Uma história que toca o distópico e que me permitiu explorar e sossegar alguma da minha vertente criativa. É ainda, na verdade, uma história que demonstra o meu estado de espírito num momento de vida muito preciso: o da minha indefinição profissional e vida futura.
Porém, ao ter passado toda a fanfarra do Natal e com outros livros a sair, sinto, acredito e sei que o seu tempo, de alguma forma, se perdeu. Isto não me deixa triste, muito pelo contrário. Sempre gostei de tentar, mas senti que, de alguma forma, era uma reflexão que vos deveria trazer.
Não recuperei o investimento feito e, muito provavelmente, irei demorar algum tempo a fazê-lo. Vendo também o próprio ritmo de leitura da comunidade e o lançamento de livros populares, antevejo que irá demorar o seu tempo até que todas as pessoas que adquiriram o exemplar possam expressar depois a sua opinião – seja má ou boa – para que o crescimento orgânico (eventualmente) aconteça.
Mas vou deixar de escrever?
Não, de todo. Na verdade, ainda há umas semanas tive a ideia para uma nova história. Mas, por agora, vou descansar. Vou recuperar este meu cantinho por aqui, vou dedicar-me ao meu trabalho e formar-me nesta nova área, que me obriga a uma aprendizagem constante.
Quero escrever. Quero muito pegar nas histórias que tenho. Mas estes meses serão de descanso mental e de perceber que rumo quero para a minha voz.
Espero, contudo, poder continuar a contar com o vosso apoio e, se quiserem, continuo com três histórias disponíveis para vosso eventual deleite:
O Amigo (Kobo) | A Ideia de Nós (Wook) | Três Dias Até ao Natal

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