Pénis – Uma espécie de musical

Foi ontem que, pela primeira vez, assisti a um espetáculo no Teatro Sá da Bandeira. Mal entrei, senti o peso histórico da sala e a sua inconfundível arquitetura, que logo me envolveram na atmosfera do espetáculo apresentado pelos atores Rui Santos, Ricardo Castro e Dagu. O começo foi atribulado, mas o que aconteceu ao longo da hora seguinte proporcionou valentes gargalhadas.

Uma peça fundada em estigmas e preconceitos

É, sem dúvida, uma peça para maiores de idade, onde o sexo assume o papel central. No entanto, logo nos primeiros minutos, surge uma exposição tão intensa a diversas palavras consideradas homofóbicas e ofensivas que me levou a questionar onde me tinha metido. Ainda assim, rapidamente percebi o propósito narrativo: a peça não perpetua esses estigmas, mas sim constrói um arco que os desconstrói. E, ao longo desta jornada, dei por mim a refletir sobre a inevitabilidade de qualquer obra que aborde estas temáticas acabar por recorrer a termos controversos, muitas vezes considerados ofensivos. O que realmente define o peso dessas palavras é a conotação que lhes é atribuída, o contexto, quem as diz e com que intenção.

A peça utiliza esse histórico de preconceitos para criar humor e construir uma história que leva o público ao riso, sem ignorar a complexidade dos temas abordados. Foca-se, sobretudo, na forma como os homens lidam e têm dificuldade com o prazer, abordando tabus e desmontando ideias erradamente associadas à comunidade gay. Além disso, expõe as suas fragilidades, especialmente quando comparadas à forma como o cérebro da mulher processa certas questões, trazendo um olhar crítico mas leve sobre estas dinâmicas.

A responsabilidade do público

A receção e interpretação do espetáculo dependem, inevitavelmente, do público. A julgar pelas reações na sala e pelos comentários que ouvi à saída, senti-me satisfeito por perceber que, além da necessidade de rirmos e nos desligarmos do caos do mundo, existia uma consciência geral de que certo vocabulário só encontra o seu propósito quando não tem a intenção de ferir o outro.

Dentro deste enquadramento, a peça constrói um arco satisfatório para a personagem interpretada por Rui Santos – um irmão acusado de assédio verbal que, na verdade, vivia no armário e usava os piropos como forma de impressionar os amigos heterossexuais. Soa demasiado real, não é? O seu irmão, interpretado por Ricardo Castro, também embarca numa jornada de autodescoberta, reconhecendo desejos que até então reprimira, apesar de amar mulheres. E é com a ajuda do personagem interpretado por Dagu, numa espécie de jornada espiritual, que este último aprende a aceitar-se. No entanto, o desfecho da peça poderia ter sido mais subtil, evitando cair na comédia fácil e previsível.

E Diogo, como foi efetivamente a peça?

Para além de todas as questões sociais que servem de alicerce ao enredo, a peça é conduzida com mestria pelos três atores, que envolvem o público com números musicais cómicos e brincam com a realidade atual. As referências a figuras como Cristina Ferreira, Teresa Guilherme e até Zelensky, bem como a alguns influencers, demonstram a adaptação do argumento à cidade do Porto, com menções a localidades e momentos específicos. Este detalhe faz com que cada sessão seja única, e que assistir ao espetáculo ao vivo seja uma experiência inigualável.

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