A Inteligência Artificial é um tema que irá redefinir profundamente a existência humana e tudo aquilo que criámos até agora. Por cada aspeto negativo, descobrimos também as suas vantagens positivas. É precisamente com estas vantagens e com o poder de auxílio das ferramentas de IA em mente que partilho convosco algumas dicas e cuidados relativamente ao seu uso no processo criativo.
Pesquisa
Há um ano e meio, depender de ferramentas de IA como o ChatGPT representava um grande risco. Atualmente, com empresas como a Google e a OpenAI a disponibilizar modelos cada vez mais avançados, alguns especificamente dedicados à pesquisa, o uso de IA para investigar temas tem potencial para revolucionar a forma como construímos histórias. Estas ferramentas permitem-nos rapidamente aceder a informação precisa, compreender fontes e validar até que ponto as nossas histórias podem refletir a realidade.
A parte científica
A inclusão de elementos científicos pode ser significativamente facilitada através da IA. Por exemplo, se uma personagem sofre um acidente ou possui uma determinada condição médica, a IA pode ajudar-nos a obter rapidamente informações gerais sobre quadros clínicos, diálogos médicos ou procedimentos específicos. Este suporte impulsiona a criatividade, garantindo uma maior fidelidade à realidade nas nossas histórias.
Visualização do ambiente
Embora diretamente relacionada com a pesquisa, a capacidade das ferramentas de IA gerarem imagens pode auxiliar-nos a visualizar cenários, momentos ou realidades alternativas e fantásticas que pretendemos criar. Esta funcionalidade é válida para personagens, eventos ou locais geográficos específicos. Se combinarmos estas imagens com ferramentas como o Google Maps, conseguimos alcançar um nível superior de realismo narrativo.
Delinear a história
A IA pode também ajudar a estruturar e testar ideias, especialmente quando não dispomos de um editor ou colegas para discutir determinados conceitos. Seja na construção de personagens, enredos ou decisões narrativas, o suporte de um assistente artificial pode clarificar ideias e identificar pontos fracos ou fortes numa narrativa.
Revisão e edição
Estas ferramentas também podem ser auxiliares no momento de rever um parágrafo, excerto ou, quiçá, capítulo. É útil para quando estamos presos ou mesmo quando queremos garantir que, em termos gramaticais, o que queremos contar está escrito de forma percetível.
Ajuda na publicação e marketing
Este é, talvez, o grande momento da verdade para estas ferramentas, já que iremos perceber até que ponto conseguimos traduzir o trabalho feito em algo tangível. Ou seja: é uma ótima oportunidade para, com estes assistentes, sabermos como nos vender a uma editora e ao nosso manuscrito. A tentar perceber onde podemos personalizar e dar o nosso toque único.
Na promoção também, com ideias de execução ou de como usar ferramentas para, ao as dominarmos, as usarmos em nosso favor. Quer seja na edição de imagem, vídeo, redes sociais e anúncios, a lista é infindável.
Tudo isto funciona, MAS…
Para alguns pode ter sido esperado, mas em caso de não terem reparado, nunca fui muito longe nos tópicos acima, e existem diversas explicações para isso. A primeira, claro, está pelos diversos dilemas éticos e morais no uso destas ferramentas no momento de se criar, nomeadamente arte. O dilema entre o real, o artificial e o dito de roubado é enorme e, com diversos esclarecimentos ainda a serem feitos por estas empresas, o que é criado pela IA é, efetivamente, novo e único. Agora, a forma como conseguiu criar é que pode ter vindo de trabalho que não foi devidamente licenciado para o efeito, pelo que existe este dilema.
O mesmo é válido no momento da pesquisa, onde ainda se torna importante, não só sabermos o que queremos pesquisar, mas como torná-lo nosso. O mesmo para a nossa capacidade de sentido crítico, que tem de se elevar ao máximo, já que algumas alucinações podem acontecer no momento em que estas respostas são dadas.
A edição e revisão são pontos fundamentais e, neste campo, temos de ter alguma confiança no modelo que usamos para perceber o que pode este fazer com o que lhe damos e fica na sua memória. Mesmo com diversas definições, desde criar um chat temporário ou não usar os nossos dados para treino, usar estas ferramentas para edição e revisão é extremamente limitado. Não só por questões linguísticas, mas porque irá censurar diversos elementos de linguagem ou temáticas, como violência ou sexo. Mesmo que deixemos claro que é ficção, se confiarmos nestas ferramentas para reverem tudo sem nós revermos por cima, a probabilidade da nossa voz, mensagem e ideia ter sido apagada, suavizada ou alterada é enorme.
Isto é igualmente válido para imagens, já que nem sempre teremos representações do que queremos, quer por falta de clareza no nosso pedido, por dificuldades dos modelos ou porque, simplesmente, estes têm diversos preconceitos que não ajudam no momento de criar uma imagem.
Existe ainda, claro, a parte principal: a história e o contacto com a editora. Por mais ajudas que tenhamos, se não acrescentarmos a nossa voz, nada do nosso trabalho adiantou. Entregamos algo plástico, artificial, onde uma editora, e um público, facilmente verão.
Então, não uso?
Usar por usar e para substituir partes do processo, não. Mas usar com consciência das capacidades, definições e limitações, pode auxiliar imenso. Filtrar o que é dado e perceber que o conhecimento individual é ainda necessário para produzir algo tão importante como uma obra literária é chave e que torna, realmente, diferenciador, o seu uso.

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