O fenómeno Adolescência e como se compara à nossa realidade

Quando adicionei a série “Adolescência” à minha lista de séries para ver, pouco sabia sobre ela, à exceção do facto de ter sido gravada num único take. Sendo fã desta abordagem criativa, que a Netflix tem explorado em algumas das suas produções, iniciei o primeiro episódio com grande expectativa. Rapidamente percebi que a história criada por Jack Thorne e Stephen Graham me remetia não só para as questões discutidas durante a minha formação académica, mas também para a experiência que tive ao trabalhar numa instituição de menores com percursos desviantes.

A realidade retratada

Para quem vive ou viveu esta realidade, a história apresentada na série pode parecer, infelizmente, demasiado familiar. Contudo, é precisamente nessa banalidade que reside a sua força. Ao assistir aos episódios, senti satisfação por perceber que a Netflix permitiu aos criadores concretizarem este projeto tão autêntico. Num panorama onde muitos grandes estúdios apostam sobretudo em remakes ou produções recheadas de efeitos visuais, “Adolescência” recupera temas que eram frequentes no cinema no início dos anos 2000, atualizando-os numa narrativa moderna, complexa e próxima da realidade.

A série não pretende dar respostas definitivas, mas faz aquilo que mais valorizo num processo criativo: atribui ao espetador ou leitor a responsabilidade de refletir, dialogar e, acima de tudo, desconstruir.

A realidade que vivenciei

“Adolescência” despertou em mim várias memórias relacionadas com o período em que fui tutor de menores numa instituição até ao ano passado. Recordo-me particularmente de um jovem, com idade semelhante à do protagonista, que utilizava exatamente as mesmas estratégias e argumentos apresentados na série. Este jovem chegou até a confessar-me que ouvia vozes que o incentivavam a matar-me, mas que não o fazia porque achava que eu tinha um rosto bonito. Destaco este episódio para sublinhar a profundidade do realismo conseguido pelos atores Owen Cooper e Erin Doherty no terceiro episódio da série, curiosamente o primeiro a ser gravado.

Estas cenas e momentos assentam numa realidade que, de uma forma ou outra, envolve a todos. Somos todos responsáveis, quer pela falta de ação ou inovação, quer pela pouca exigência que fazemos aos nossos governantes. Refiro-me especificamente ao sistema educativo que, só agora, com a chegada da inteligência artificial, começou a sofrer mudanças significativas, mas ainda muito tardias e reativas. Este atraso evidencia como, em países como Portugal, a escola não tem acompanhado as melhores práticas internacionais de incentivo à criatividade e à valorização da diferença de cada criança. Embora a IA tenha demonstrado claramente a obsolescência dos métodos tradicionais de avaliação, falta ainda muito no desenvolvimento da componente humana, permitindo efetivamente às crianças serem simplesmente crianças.

Aliando isto ao fenómeno das redes sociais, que falham em filtrar conteúdos adequadamente, e à realidade familiar onde muitos progenitores aceitam passivamente toda a informação que encontram online, enfrentamos um dilema complexo que a série “Adolescência” explora sem reservas.

As redes sociais são realmente o problema?

Na minha opinião, as redes sociais potenciam problemas já existentes, mas não são a raiz do problema. Antes são um reflexo das realidades sociais, culturais e políticas vigentes. A pressão social permanece como um fator decisivo no desenvolvimento pessoal e, se não for abordada de forma clara e aberta, facilmente leva ao isolamento total nas redes sociais. Esta questão agrava-se ainda mais quando falamos de rapazes pela masculinidade tóxica ou de populações marginalizadas, onde o silêncio se torna a norma e a desconstrução emocional se perde completamente.

O futuro

Acredito firmemente que a inteligência artificial tem acelerado debates fundamentais sobre sociedade, educação e humanidade. Contudo, é essencial considerar o impacto destas discussões nas gerações mais jovens. Precisamos de debater estes temas não apenas numa perspetiva tecnológica, mas sobretudo humana, reconhecendo que a nossa vivência em sociedade precisa urgentemente de ser repensada para possibilitar um desenvolvimento saudável, um crescimento consciente e uma inovação que seja verdadeiramente benéfica. Também acredito que proibir, quiçá, o uso de telemóveis ou redes sociais possa levar a uma maior dependência em casa, o que acaba por entrar em conflito com o que se pretende. A resposta? Um equilíbrio, mas para o conseguir, é mesmo preciso mais que uma mudança de mentalidade, mas de paradigma social.

Com isto, não me despedia sem vos recomendar também, na Netflix, a série Por 13 Razões e Sex Education.

Comenta aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.