Cinco dias em Roma: uma viagem de corpo, alma e memória

Podem não saber, ou não estar recordados, mas desde que voltei a estudar, ou seja, em 2022, que não tenho descanso. Tendo feito este percurso enquanto trabalhava, incluindo estágio e agora uma licenciatura, férias é coisa que tenho desconhecido. Até à oportunidade única da passada semana, onde durante cinco dias, consegui voltar a flutuar e, sabem, quando fecho os olhos, ou agora, enquanto escrevo isto sem olhar para o teclado, mas sim para um fundo distante, consigo sentir-me novamente lá. É sobre isto que vos quero contar.

Fragmentos do passado

Já tinha ido a Roma em 2010, aquando de umas outras férias com família e amigos. Apesar da minha memória não ser 100% perfeita, ainda hoje me lembro do trajeto, da correria, do que comi e, claro, dos monumentos e até de algumas fotografias que tirei. Isto acabou por me fazer, durante os dias que lá estive, nostálgico daquela que foi das primeiras grandes viagens que fiz e de como cresci até agora, incapaz de acreditar que lá voltaria. Poderiam dizer que é da mítica Fontana di Trevi, mas não me recordo se nessa altura atirei alguma moeda, pelo que terei de deixar isso para quem acredita nessas coisas.

Apesar de não ter conseguido comer a piza enrolada que tanto me lembro daquela época, consegui encontrar na cidade outras coisas, como a sua limpeza, a facilidade no inglês, simpatia em todos os que falava e, claro, comida deliciosa a cada esquina, onde me atrevo a dizer que até uma sex shop muito provavelmente teria alguma gelataria lá por dentro pela facilidade com que se encontram gelados nas ruas.

A descoberta

Sei que muitos amigos e conhecidos me pediram por um itinerário e, procurando fazer o meu melhor nesta publicação, aquilo que vos consigo dizer é que, tendo ido no final de abril, o que me afastou da confusão da Páscoa, fazer a cidade a pé é inteiramente possível e fácil. Atendendo a que em cada rua encontramos, depois, diversos monumentos, como igrejas ou tempos e até lojas que por cá não temos, é extremamente fácil e prazeroso caminhar pelos diversos quarteirões da cidade.

Isto levou-me, a mim e ao Ricardo, a descobrir sítios bons para as refeições e até lojas que gostamos de ver noutros países, como uma Apple Store, renovada e que preserva detalhes e pinturas do espaço, assim como uma Disney, que por cá não existe, ou a LEGO e uma loja recheada de patos. Acaba por ser uma forma também de entrar naquilo que é a vida corrente de quem lá vive, onde caminha e onde vai. Isto levou-nos até a descobrir uma rua extremamente conhecida pela sua natureza: a Via Margutta.

Primeiros passos e uma massa simpática

Mas, para os que querem algo mais direto, existiram diversas coisas que foram planeadas por questões de bilhetes e horários. Uma vez que queríamos, ao máximo, andar descontraídos, procuramos espaçar as coisas e ser nossos amigos. Assim, apesar de acordarmos cedo, na terça-feira, por termos chegado à noite, optamos por caminhar nas redondezas do hotel e até perto da Cidade do Vaticano, onde comemos uma massa bem simpática num restaurante demasiado fofo e que as imagens falam facilmente por nós.

Foi, se a memória não me falha, o lugar mais barato onde comemos, sendo que posso já adiantar que a média, a dividir por dois, de cada refeição, andou pelos 12€ a 15€. Existiu ainda, em quase todos os sítios, uma taxa turística de 4€ o que encarecia o preço geral. Adiante…

Quarta-feira de descobertas

Na quarta-feira, ou seja, o nosso primeiro dia completo, começamos pelo Castelo Sant´Angelo e não conseguia deixar de pensar no filme Anjos e Demónios ao caminhar no gigantesco castelo circular e que foi também prisão. A grandeza não é possível de obter pelas fotografias, mas das coisas que mais gostei foi a preservação do mesmo, as exposições e, ainda, como é possível de circular livremente no foço, o Vale Fratel Porfirio Cipriano, que é um pequeno jardim, com bancos e controlado por video-vigilância, o que dá sempre alguma segurança acrescida. Assim, neste passeio, que contou, claro, com o primeiro cappuccino na cidade, servido perto já da Praça de São Pedro, mergulhamos numa cidade calma, beijada pelo sol e onde alguns peregrinos começavam já a chegar por cona do jubileu do Papa.

Uma pessoa bebendo café em um copo descartável, com um fundo de um rio e uma ponte em Roma sob um céu azul claro.
Desfrutando de um cappuccino à beira do rio em Roma, enquanto aprecia a vista do histórico Castelo Sant’Angelo.

O almoço acabou por ser num restaurante ali perto após termos sido recomendados por uma senhora muito simpática. Foi onde comi a minha primeira piza e, muito como me disse a minha madrinha, comer mal em Roma é, efetivamente, difícil. É obvio que, por conta da globalização, já comemos muito boa comida italiana por cá, mas torna-se difícil igualar o forno de lenha, o sabor do molho de tomate e, claro, o queijo e o aroma que espalha pela cidade.

O Vaticano

Fomos por duas vezes à basílica de São Pedro e, em cada uma, a mesma se afigura como imponente. De arquitetura e detalhe impressionante e que se estende até aos céus, onde mesmo não sendo católico me levou a sentir o peso de tal edifício na história da humanidade. Um reflexo de como somos capazes de apreciar o resultado mesmo que não apreciemos o produto que lhe deu origem.

Os Museus do Vaticano, contudo, foi o que mais me surpreenderam, tendo-me recordado das duas visitas que fiz ao Louvre, quer pela dimensão, como pela quantidade de coleções que lá têm. Foram perto de duas horas e meia que lá tivemos a caminhar e correr para conseguir ver tudo antes de fechar (fomos às 16h) e de apreciar, claro, no fim, a capela Sistina, pintada pelos maiores artistas do Renascimento, incluindo Michelangelo, Rafael, Perugino e Sandro Botticelli. Sem se puder tirar fotografias, a grandeza da pintura, detalhe e história facilmente fica gravado em nós pelos seus tetos altos e gravuras que acolhem, quando é altura, a votação de um novo papa, sob o olhar atento da icónica gravura de A Criação de Adão.

À parte curioso: fomos mandados parar pelos Carabinieri, uma força policial italiana, que nos pediu para verificarmos a identidade. Isto atrasou o nosso percurso da praça de São Pedro até aos Museus do Vaticano, mas a sorte de encontrar posteriormente um português no controlo de segurança garantiu-nos que não perdíamos o nosso slot nos museus. Uma aventura para contar, onde os nervos se apoderaram de nós.

O Coliseu

Comprar bilhetes para o Coliseu afigurou-se numa aventura interessante, já que são diversos os bilhetes que têm com diferentes níveis de acesso. Existem bilhetes para a arena, para o primeiro e segundo piso, para o piso superior e ainda para o que acontece debaixo de terra. Isto implica que qualquer visita convém ser bem planeada por forma a que, sabendo o que querem ver, comprar o adequado. Nós acabamos por ir, primeiro, para a arena, onde temos acesso a uma pequena área de visita por 20 minutos e que nos deixou meio que confusos. O engraçado foi que nos perdemos ao seguir umas setas que referiam ao percurso e fomos parar ao segundo piso, sem autorização. Sair acabou por ser tranquilo e ninguém nos perguntou nada, mas sabíamos que queríamos voltar para aceder ao primeiro e segundo piso de forma completa. Aqui o que me salvou foi outro cappuccino e que bebemos num café queer-friendly que há, literalmente, em frente ao Coliseu.

Vista do Coliseu e do Arco de Constantino, destacando a beleza e a história da cidade de Roma.

Com uma piza no estômago, a parte de tarde foi dedicada ao Fórum Romano e à imensidão de todo o complexo. Desejei, por diversas vezes, que no futuro tenhamos alguma experiência com Realidade Aumentada para vermos como era viver naquele tempo, já que as vistas e todas as estruturas são de tirar o fôlego, nomeadamente os dos jardins do palácio, com diversas laranjeiras que adocicavam o ar e me transportavam para uns outros tempos onde traços de poluição eram difíceis de encontrar. O que não era difícil de encontraram era, naquela zona, vendedores, a tentar impingir pulseiras e assinaturas, algo que acaba por desaparecer longe dos monumentos e nos levou a percecionar a cidade como segura nas diversas ruas e ruelas que andávamos.

Foram elas que nos levaram novamente ao Coliseu, no dia seguinte, a explorar o andar superior e a imaginar a dimensão das batalhas que lá existiam, assim como a perícia arquitetónica necessária para construir uma arena que, não só se enchia de água, como poderia ficar coberta.

Igrejas, fontes e escadas

Praça de Espanha, Fonte de Trevi, Igreja de São Joaquim no Prati, Panteão, Basílica de São João dos Florentinos, Igreja Nova di Nossa Senhora em Vallicella, Sant’Agnese in Agone, Igreja de Santo Ivo na Sapienza, Piazza Navona, Fonte de Neptuno, Templo Adriano, Praça do Povo, os monumentos e fontes eram tantos, que os perto de 75km que percorremos a pé nestes dias foram essenciais para os irmos disfrutando e descobrindo à medida que, com um mapa na mão, navegávamos pela cidade.

A Fonte de Trevi é, provavelmente, das atrações mais conhecidas e, apesar de termos pensado que a entrada seria paga, por vermos uma fila, a mesma tem o único propósito de tornar a entrada mais rápida, responsável e sem atropelos. Uma vez no recinto, podemos estar o tempo que quisermos mediante o respeito às regras, como não nos sentarmos na fonte. Já o Panteão acabou por ser, não só um ótimo local de apreço arquitetónico e de como a cidade cresceu à sua volta, como para comer. Na verdade, foi nesse quarteirão que passamos perto de 45 minutos numa fila para comer famosas sandes em pão focaccia. A minha tinha burrata, fiambre, creme de pistácio e era de-li-ci-osa! Valeu a pena a espera e, para surpresa das surpresas (not), estamos na fila com outros portugueses.

Roma, um estado de espírito?

A cidade deu-me dores de pés, assaduras nas pernas, mas permitiu-me um descanso que não tinha há algum tempo. Deu-me bons cappuccinos, piza e lasanha deliciosa, incluindo uma frita, assim como grandes quantidades de gelado cremoso e de doces com pistácio altamente saborosos. A textura da massa na boca, do molho de tomate e ingredientes frescos levam-me, ainda agora, a ganhar água na boca.

A cidade e simpatia das pessoas, os imensos animais de quatro patas a passear, levou-me a descobrir uma cidade com outros olhos. Uma cidade viva, com imensa diferença e curiosidade em quem a visita. Os monumentos são imponentes e extremamente bem conservados. Descobrir a cidade a pé torna-se extremamente fácil, assim como o uso dos transportes públicos, que têm os menus disponíveis em vários idiomas, como o inglês, e um bilhete de metro para 100 minutos custa 3€, e um de 24h 7,00€. Para o aeroporto compramos online de autocarro, sendo que para voltar ao mesmo, escolhemos ir de comboio para uma experiência diferente. Fomos de metro, que tínhamos mesmo atrás do hotel The B Place (que ficava a 12 minutos a pé do Vaticano), e pagamos 14h€ para, durante 33 minutos, ir até ao Aeroporto. Poderíamos ter ainda escolhido ir num comboio que paga em todas as paragens e por metade do preço. O bom do bilhete comprado é que permite ir no comboio em qualquer horário, não estando o mesmo sequer no bilhete, sendo que a validação da viagem acontece na entrada do recinto do comboio.

No último dia a nostalgia já se apropriava, mas deu-me vontade de regressar. De agora, com os principais pontos vistos e passados a pente fino, regressar para um fim de semana e aproveitar, junto ao rio Tibre, contemplar a paisagem do filme da Pixar inspirado na costa italiana, Luca, um cappuccino ou croissant num café de livros, de contemplar as pinturas dos marcos italianos e, claro, ficar impressionado com os feitos do império Romano e que, ainda hoje, moldam a civilização.

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