Acho que, pelas diversas referências feitas nos últimos tempos, já sabem que os filmes Mamma Mia são um autêntico deleite para mim. Não só pela história cativante, criativa e divertida, mas também pelo elenco e pelas músicas, que dão alma a cada cena. Esta paixão pelo mundo criado por Catherine Johnson e Phyllida Lloyd é tão grande que, ainda hoje, me lembro perfeitamente do que foi ver este filme no cinema.
Sendo os filmes inspirados no musical de 1999, e sabendo que, no passado, o espetáculo já tinha passado por Lisboa, foi com alegria que, no ano passado, fiquei a saber que não só iria voltar a Portugal, como estaria perto de casa, com uma semana inteira no Porto, numa comemoração dos 25 anos. Com o entusiasmo que me é característico, lá comprei os bilhetes – perante a incredulidade da minha mãe face a uma compra tão antecipada. O certo é que, um ano depois, os espetáculos chegaram, esgotaram e, após um sábado em família, o sol pôs-se e, naquele 31 de maio, assisti ao melhor espetáculo de sempre.
Luzes, dança, música
Sendo a minha segunda visita do ano ao Coliseu do Porto, desta vez foi na plateia que assisti ao desenrolar de uma história que conheço como a palma da minha mão. E, se no cinema temos as paisagens de uma lindíssima ilha grega, no teatro essa imagem é substituída por um figurino e cenários que se movem ao som, literalmente, da história.

Com um elenco representativo, que acompanha os tempos (assim como algumas piadas), a história segue a linha narrativa que inspirou o filme, mas, claro, com diversas surpresas pelo caminho.
A intimidade do teatro

Atendendo às limitações físicas de uma sala de espetáculos, a peça consegue dar uma maior intimidade à história, aos conflitos de Donna (Steph Parry) com os três possíveis pais de Sophie (Ellie Kingdon): Harry (Stuart Reid), Bill (Bob Harms) e Sam (Richard Standing). Tudo isto sem abdicar de números musicais estrondosos, tanto a nível de acrobacias como da impressionante capacidade vocal do elenco, que trouxe a energia dos ABBA ao coração do Porto.
A história transforma-se diante dos nossos olhos, de forma frenética e imparável. Apesar de ser em inglês, um ecrã no topo do palco exibia legendas. Esta peça fez-me admirar ainda mais a adaptação cinematográfica, pois a mesma incorpora não só temas do segundo filme (One of Us e Knowing Me, Knowing You), como acrescenta duas novas músicas: The Name of the Game (que está presente no filme, mas foi cortada) e Under Attack.




Aliado às músicas, existe algo que só o teatro oferece e que é realçado pela própria narrativa: muitas canções ganham um novo significado e acrescentam mais profundidade à história. Um bom exemplo é Our Last Summer. No filme, é cantada por Harry, Sam, Bill, Sophie e Donna, mas, na peça, a mesma música é interpretada apenas por Harry e Donna, dando-lhe um peso emocional distinto.
Não estou a dizer que uma versão é melhor do que a outra, longe disso. Refiro apenas que as camadas que cada uma acrescenta são diferentes e, no fundo, enriquecem a melancolia e a saudade tão características do terceiro ato. No teatro, as personagens ganham mais espaço, especialmente Harry, Sam e Bill, cuja vulnerabilidade se torna mais palpável e alimenta a narrativa. O mesmo se aplica à personalidade da mítica Tanya (Sarah Earnshaw) e de Rosie (Nicky Swift), que arrancam gargalhadas aos espetadores.

O trabalho dos atores é fenomenal e sei que, para sempre, terei na cabeça as atuações de The Winner Takes It All, Does Your Mother Know, Money, Money, Money e Lay All Your Love on Me. A coreografia foi tão impressionante que, para além da comoção constante, era difícil não sorrir e trautear as músicas que tão bem conheço.
Um final triunfante
Foi com o encerramento da narrativa que o público se levantou das cadeiras para, no encore, vibrar com um elenco energético que nos cantava os clássicos Mamma Mia, Dancing Queen e Waterloo. Quer pelo figurino, quer pelos sorrisos rasgados que encheram um coliseu em festa, Mamma Mia consagra-se, para mim, não só como uma das melhores duologias do cinema, mas também como a melhor peça de teatro musical que alguma vez vi. Emoções humanas como aceitação, pertença, erro, solidão, saudade e amor iluminam e trazem as músicas intemporais dos ABBA a plateias dos 10 aos 80 anos num mundo onde a luz é sempre necessária.

Comenta aqui