O meu verão começou com dragões e um miúdo perdido no espaço

Pipocas com M&Ms

O verão costuma ser, por vezes, tão animado quanto parado no que toca a estreias. Quer porque os estúdios guardam tudo para o Natal, quer porque, mal entra setembro, começamos a ter a habitual vaga de filmes de terror, a verdade é que o verão deste ano está, sem dúvida, marcado por estreias de alto calibre. Apesar de ainda faltarem algumas semanas para a próxima aposta da Universal no mundo jurássico, os filmes que vi na última semana inauguraram, para mim, a temporada de correria ao cinema.

Como Treinares o Teu Dragão

Sou fanático pela trilogia animada original? Não. Conheço a premissa da história e os seus valores? Oh yeah, um sim gigante. Como Treinares o Teu Dragão não é apenas uma aventura mítica com dragões onde a amizade é o foco. Nada disso. Existe um vilão, claro, mas há outro ainda mais marcante: o medo do desconhecido. Uma tribo de vikings começa a perceber que, talvez, a sua tradição secular de matar dragões seja infundada e que, no meio dessa guerra, falhou por completo em compreender o panorama geral — e, claro, as relações futuras entre os habitantes da ilha de Berk.

O filme foca-se na relação conturbada entre Stoick, interpretado pelo grandioso Gerard Butler (que também dá voz na animação), e o seu filho, Hiccup, interpretado agora pelo jovem Mason Thames. É aqui que reside o coração do filme: Hiccup tenta agradar ao pai e à ilha, respondendo às expetativas que todos depositam nele, mas descobre que não quer matar dragões. Acaba por capturar o dragão mais raro de sempre — Toothless — e terá de defender a sua posição quase única de que matar dragões não é solução.

Com uma cinematografia que faz jus às memórias do primeiro filme animado, e uma banda sonora expandida para o live-action, Hiccup e Toothless lideram uma batalha onde valores como lealdade, família e autodescoberta se tornam fundamentais no desenrolar da história.

O filme conseguiu, para mim, capturar muito bem esta essência e transformar dragões animados por computador em personagens carismáticas e reais. A presença dos mesmos tem propósito — e não se perde — e a amizade entre Hiccup e Toothless nasce de forma espontânea, com elementos de comédia que ajudam o espectador a sentir as interações como mais humanas. Esta ligação é ainda mais enriquecida pelos cenários construídos, que tornam o filme uma experiência rica e completa, numa indústria cada vez mais refém dos efeitos gerados por computador.

Estou deveras ansioso pela sequela, prevista para 2027, e mal posso esperar por rever a versão animada no conforto do meu sofá.

Elio – a nova história original da Disney

Perda. Luto. Solidão. Incompreensão. Estas são, para mim, as palavras que mais definem a história de Elio, da Pixar. Estreado na passada semana, com aquela que é, até ao momento, a bilheteira mais baixa para um filme do estúdio, esta história original deixa-me com sentimentos díspares — tanto enquanto espectador como ao pensar naquilo que o estúdio tem tentado alcançar.

Não é a primeira vez que abordo estas questões. Com diversas narrativas cortadas em filmes recentes da Disney e Pixar, e um foco acentuado em sequelas, a empresa tem vindo a enfrentar dificuldades em reconquistar um público que parece só rumar ao cinema para ver a sequela número vinte e três, em vez de descobrir uma história original. E, por mais que Elio pareça um nicho nesta aposta de ficção científica da Walt Disney, a história criada por Madeline Sharafian, Domee Shi, Adrian Molina e Julia Cho usa o género apenas como pano de fundo para falar de algo muito mais delicado: a perda de ambos os progenitores e o que pode ser o acolhimento por um outro elemento da família.

Elio, sem rumo, interioriza — pela sua idade — que está sozinho na Terra e sem ninguém que o ame como os seus pais. O Universo surge, assim, como resposta, obsessão e escape da personagem para abandonar o planeta e começar a vida noutro lugar. Incapaz, ainda, de ver que existem outras formas de amor e amizade.

Com personagens sólidas e divertidas, a história introduz um outro ingrediente: a mentira. É através dela que Elio começa a crescer e a explorar perspetivas que, até então, não fora capaz de ver. Nos seus 99 minutos de duração, o filme mergulha nestes temas que, sendo uma produção da Pixar, tocaram-me profundamente, pela forma palpável como estas emoções surgem — e nos acompanham ao longo da vida.

Contudo, ao tentar lidar com tantos temas, sinto que o filme se perde um pouco na sua resolução final. A jornada emocional de Elio parece transformar-se, de repente, numa espécie de conquista espacial. Apesar deste sabor agridoce que o final me deixou, Elio é uma aposta sólida, inserida num já vasto catálogo de narrativas da Pixar que abordam temas complexos.

E ressoa com qualquer um de nós ao resumir a longa-metragem a uma verdade crua, mas bela: a vida permite-nos — e dá-nos — outras pessoas que nos amam. Por mais humano e, talvez para alguns, romântica que esta visão seja, é um ótimo mote para refletirmos sobre as diferentes formas de amor. Muitas vezes, esse amor vem de quem — ou de onde — menos esperamos. Temos é de estar dispostos a vê-lo. E senti-lo.

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