Cresci rodeado de filmes e música. Não só tinha um leitor de VHS, como também um gira-discos que, honestamente, pouco me lembro de ver funcionar durante a minha infância e adolescência. Mas os anos passaram, tornei-me jovem-adulto e, com o tempo, o gira-discos do meu pai começou a tocar. Ajudou o ressurgimento dos vinis e, quase sem aviso, aquilo que era um formato arcaico voltou à ribalta. Se noutros sectores do entretenimento as vendas colapsaram no nosso país, nomeadamente no cinema físico, as da música, mesmo na era do streaming, continuam fortes.
Com várias cores, edições especiais e generosas doses de nostalgia, tem sido um verdadeiro deleite encontrar álbuns dos meus artistas favoritos em versões cuidadas. Agora que eu próprio tenho um leitor de vinis, oferecido pelo meu pai, consegui descobrir uma camada que, em tempos, desconsiderei por completo.
Pelas notícias que vão surgindo, sabemos que uma grande parte destas vendas acontece, contudo, por moda e estilo — da mesma forma que encontramos quem compre livros apenas pela decoração. Não sendo esse o meu caso, só consigo pensar na outra percentagem de compradores que adquire o vinil por aquilo que ele é: um suporte musical que toca não só o passado, mas toda a nostalgia que o acompanha. Não apenas pelo lado comercial, das editoras que os voltam a produzir ou das lojas de música que ressurgem, mas porque abre portas a algo que, cada vez mais, temos menos: tempo.
O deleite pelo tempo
Parece irónico recorrer a algo antigo para nos fazer reflectir sobre o tempo, não é? Mas o vinil fez-me perceber exactamente isso. Por ser diferente do digital, não estou constantemente a saltar de faixa em faixa e, nesse processo, não só cuido melhor do objecto como aprecio um álbum de outra forma. Descubro cada faixa com uma ansiedade renovada, sabendo que, a meio, terei fisicamente de virar o disco para continuar.
Numa vida quotidiana que procura, a todo o custo, o imediato, o vinil surge como uma escapatória. Obriga-me a estar presente, atento, e a olhar para ele com um apreço diferente daquele que o digital me oferece, algo fácil de controlar e manipular.
O contacto com o artista
Esta calma leva-me, acredito, a apreciar o artista de outra forma. Dou atenção a cada nota, a cada música e à sucessão que constrói uma história que, no digital, muitas vezes nego a mim próprio pela facilidade com que passo à frente. Torna-se, assim, também uma lição pessoal, ao constatar como sou, tantas vezes, o meu próprio pior inimigo ao não dar uma verdadeira oportunidade ao que é novo.
A proximidade com o artista torna-se maior, mais sentida. Cada vinil transforma-se, para mim, não apenas num produto que evoca o passado, mas num meio que traz o melhor dele: a narrativa completa de um criador, apreciada sem cortes. E depois de anos divididos entre estudar e trabalhar em simultâneo, entregar-me a um vinil no fim de uma semana é uma forma de saborear a vida de outro modo e de me lembrar, conscientemente, de abrandar.

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