Ser autor é difícil e todos sabemos como o mundo editorial é, para não dizer outra coisa, desafiante. Ainda se lê pouco e, por mais que o número de vendas de livros tenha aumentado, o mesmo não significa mais livros de autores lusófonos comprados. Isto implica que o autor, quando começa a sua carreira, tem de caminhar, caminhar, subir degraus, descer rampas (acentuadas) e, eventualmente, ir caminhando e subindo mais alguns degraus até chegar a onde quer. Ao que quer. Isto pode ser difícil de compreender, mas percebi que, em Hollywood, temos imensos exemplos disso e, talvez, existam alguns indicadores que não podemos ignorar.
Os atores começam nalgum lado
É comum estar a ver ou rever séries e, do nada, encontro um ator inesperado. O último caso deu-se com a série Ficheiros Secretos e de como, num papel sem qualquer importância ou destaque, o ator James Pickens Jr. fazia de secretário. Fiquei eufórico e especado, não esperando ver o famoso médico de Anatomia de Grey naquela série. Isto deixou-me pensativo e a constar, obviamente, o óbvio. De que a nossa carreira começa sempre nalgum ponto. Quer seja um ator, num papel pequeno e esporádico, até alguém que ambicione trabalhar ao serviço do Estado e entre por uma qualquer vaga de emprego para ficar no sistema, o percurso começa sempre da forma mais inesperada.
Esta analogia aplica-se também a Miley Cyrus, a conhecida intérprete de Hannah Montana. Cyrus enfrentou desafios relacionados às suas condições de trabalho, que afetaram a sua carreira enquanto ela se redescobria e lutava para recuperar a infância e adolescência que sentia ter perdido. Anos depois, a sua perseverança foi recompensada com o seu primeiro Emmy, um momento que me deixou extremamente feliz. A alegria foi ampliada ao ver outros artistas, que passaram pelas mesmas experiências em programas e filmes da Disney, a aplaudi-la. Esta conexão entre as trajetórias de Miley Cyrus e a dos autores parece-me lógica, autêntica e totalmente baseada na realidade, e não em ficção. A artista não só se foi reinventado na imagem, músicas e álbuns, como na forma que se expressava. Sempre com os críticos e nostálgicos de Hannah Montana à perna, esta fez o que bem lhe entedia e sentia.
O que me mostrou isto?
Sendo o mercado editorial tão desafiante, é fácil sonhar numa casa editorial grande ou ter um livro de estreia tão gigantesco que contratos e direitos de autor caiam por todos os lados. Porém, uma vez que as oportunidades nem sempre são iguais ou justas, julgo que nos esquecemos que o importante é começar.
Estes dois artistas mostraram-me que tal é possível e é o esperado na indústria, assim como são diversos os atores e músicos que nunca foram reconhecidos nos Óscares ou na mítica Calçada da Fama. Todavia, o que não deve faltar é a capacidade de, ao começarmos este caminho, descurarmos os nossos direitos. Querer forçar este percurso tem os seus pontos negativos e vender a nossa alma ao Diabo é tão ou mais prejudicial que não fazer nada de todo. Que não tentar e trabalhar. Isto parece elementar, mas acreditem, não o é! Quando temos tanta nega aos nossos manuscritos por meio de ausência de resposta, calendários de publicação cheios ou modelos híbridos de publicação, desistir é a palavra que mais ecoa na cabeça de um autor. E, tendo-me deparado com estes dois exemplos e num espaço de tempo tão curto, crucifixo-me pela forma como, ao longo destes anos, fui duro comigo mesmo.
Espero que nunca passem por isso ou, se passarem, de darem um passo atrás e perceber o que querem, onde querem chegar e de como o fazer.

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