A importância da ponderação na publicação de livros: lições aprendidas

Se me dissessem há cinco anos que estaria a falar disto, bem, atirar-me-ia da ponte. É bizarro o ponto a que cheguei para me permitir falar disto, mas seguindo a ótica do que tenho refletido convosco, demonstra só a capacidade de aprendizagem ao longo destes anos de edição para, bem, crescer. E, meus amigos, se há uma lição a tirar, é que a ânsia por ter um livro publicado e com selo editorial é a pior inimiga de um autor.

Compreender a ânsia

Por esta altura, devem saber como não gosto de partir para um tópico sem dar nenhuma referência dele e, neste, sinto ainda uma necessidade maior. Já revelei no passado como um autor sofre e dos diversos estigmas associados aos jovens/novos autores. Hoje, anos depois, permitam-me adicionar a essa lista a paixão cega pela escrita, que leva, em 99% das vezes, a um escritor querer publicar logo que acaba um manuscrito.

Confesso que compreendo esta ânsia e, sendo a escrita algo tão solitário, a publicação traduz-se como um findar da jornada e de como vamos partilhar e falar da nossa história com o grande público. Este sonho é efervescente, consegue ser contagioso e, agora com as redes sociais, levar-nos a sentir impostores quando não estamos publicados, mas, pelo bem do mercado literário e da nossa contribuição para ele, que saibamos ter calma!

Entra a ponderação

É comum pensar que o primeiro livro escrito é uma obra de arte. Que está pronto a sair para a gráfica, onde a ideia do que é uma edição e revisão profissional são irrealistas. Mas, caros escritores, colegas, permitam-me revelar que estão errados. Que, mesmo que o vosso manuscrito esteja na baixa probabilidade de ser um sucesso instantâneo de vendas, é normal e esperado que, ao fim de uns bons anos, sejam mais os manuscritos numa gaveta do que aqueles cá fora. Isto é normal, faz parte do processo criativo e de aprendizagem literária, mas que, sem ponderação, pode levar a um impacto que, no início, não imaginamos.

Entra a minha experiência

Quando iniciei o processo de publicação do meu primeiro romance, em 2014, percebi desde logo que as coisas não seriam lineares. Especialmente por trabalhar com a minha madrinha, professora de português, na revisão e edição da história. O manuscrito sofreu imensos cortes e melhorias para, mais tarde, permitir-me aventurar num segundo. O que muitos não sabem é que, na verdade, até publicar o Esquecido, em 2018, escrevi durante dois anos um manuscrito de fantasia que, desde então, ficou na gaveta. A vontade de falar dele é enorme, mas, naquela altura, comecei a desenvolver um maior sentido crítico que me levou outros dois anos a trabalhar no thriller Esquecido. Com o que aprendi nesses anos, apliquei um novo método de trabalho em O que nos Magoa, um romance que, tendo recebido da respetiva editora um ficheiro revisto com pouco mais de três erros, me fez sentir renovado e confiante. O livro teve um alcance enorme que, mesmo após seis anos, me surpreende e, com ele, a maior chapada que poderia ter levado naquela altura. Ao começar a conquistar o meu público e a atrair mais críticas, percebi como tinha confiado demasiado em “outros” ao ponto de renegar, talvez, essa responsabilidade em mim: o livro estava cheio de erros, tendo tido, como apontado na altura, uma revisão terrível. Não senti impacto negativo no meu livro seguinte, Dislike, com estas críticas que apontavam o dedo à edição “profissional”. Eu próprio, na altura, reuni-me com a editora para abordar estas questões, sendo-me atribuída culpa (mesmo não tendo qualquer formação em revisão e edição), pelo que, se queria afastar a minha imagem de um mau escritor, tomei a maior decisão de todas: a de me valorizar e garantir que os leitores, no meu livro seguinte, o Dislike, permanecessem comigo para livros futuros.

A minha escolha

Estava a chegar a mais público e, se caísse no mesmo erro agora que estava a ter apontamentos reais e orgânicos do mesmo seria, literalmente, a morte do artista. Pelo que, a única solução e tendo um livro prometido para publicar, foi a de atrasar o processo e investir numa editora e revisora independente. Aqui, neste momento, foi o meu primeiro contacto real com a ânsia e impulso em publicar para, do nada, me obrigar a parar e refletir na minha jornada. Em como sabia que um livro é, no final de tudo, um produto, e de que se alguém vai pagar para o ler, é bom que o mínimo de qualidade literária esteja garantida.

E assim foi. Este investimento resultou numa obra que estimo imenso e que me ensinou fundamentos que outrora não pensara nem conhecia. No entanto, durante o processo de revisão, algumas decisões editoriais, focadas principalmente em correções gramaticais mecânicas como a colocação de vírgulas, não levaram em conta o contexto mais amplo da escrita. Isso resultou em correções que nem sempre se adequavam ao conteúdo. A experiência levou-me a dedicar um tempo significativo para rever e justificar cada escolha gramatical, reforçando a importância de um envolvimento mais personalizado na edição. Essa situação destacou a necessidade de investir em serviços externos de revisão que respeitem e entendam a essência da obra literária. Apesar de um autor precisar dominar os fundamentos da escrita e gramática, acredito firmemente que o processo de edição e revisão deve ser tratado com a máxima seriedade, algo que, infelizmente, nem sempre ocorre, principalmente em contextos onde a pressa em publicar pode comprometer a qualidade.

A pressa é a inimiga da perfeição

Não acredito em livros perfeitos e recordo como tal ideia me foi perpetuada numa aula de português, há mais de dez anos, a respeito de um poema de Fernando Pessoa. Todavia, podemos minimizar as imperfeições com ponderação, leitura do momento, do mercado e avaliação crítica da nossa história. Acontecendo este último ponto, de forma ideal, com apoio externo, irá permitir que a nossa estreia no mercado seja impactante e significativa. É muito fácil um autor vender o seu primeiro livro, mas um segundo quando o primeiro foi terrível? Foi assim que me senti em O que nos Magoa. Uma vergonha terrível e medo de promoção por estar a promover um produto que, como outro, era como que defeituoso. Se fosse hoje, faria as coisas de forma muito, muito diferente.

Esta lição levou-me mesmo a trabalhar com editorea e revisores externos para obras como A Ideia de Nós, Três Dias Até ao Natal e até P.S.:Ficas Comigo?, do Wattpad. As restantes foram removidas por não considerar estarem garantidos os padrões de qualidade que hoje procuro.

O que mudava?

Em primeiro lugar, começava por diversificar os géneros que lia para sair mais da ficção e, com isto, conhecer mais livros sobre escrita e publicação. Isto dar-me-ia um conhecimento mais atempado e iria ter a necessidade de investir em mim de forma mais rápida, quer com leituras mais atentas e críticas, quer com investimento financeiro em profissionais qualificados. Tinha uma editora, mas da mesma forma que no mercado americano um manuscrito só é quase vendido por um agente após um trabalho entre o escritor e editor independente, aqui faria o mesmo. Seria uma forma de ter uma maior oportunidade junto de editoras tradicionais para, se não conseguisse, avançar para o próximo ou, mesmo publicado em modelo híbrido ou sem pagar, saber que o que iria trabalhar com a editora seria a elevação plena ao que tinha feito.

Isto ter-me-ia permitido maior segurança e orgulho no meu trabalho e, quiçá, a não me sentir na obrigação de remover os livros que tinha publicado anteriores ao Três Dias até ao Natal. Uma vez que tudo o que está publicado fica registado e nas bibliotecas nacionais, esta salvaguarda pelo meu trabalho e sua qualidade iria garantir que qualquer contacto com uma história minha seria proveitoso na experiência de leitura. A história poderia não ser boa, mas saberia que teria algo cuja leitura não era interrompida com erros ou momentos sem sentido.

O meu conselho

Parece redundante mas, para fechar, o meu maior conselho é: se fores um escritor, tem, por favor, calma. Os nãos são garantidos e, atualmente, parecem mais frequentes pela flutuação de temáticas e géneros em voga no mercado literário. Porém, para qualquer oportunidade, a paciência e o trabalho são deveras importantes. Só assim conseguiremos trilhar um caminho mais linear e longe de dúvidas internas, dando-nos espaço para focar no que realmente importa: na escrita.

Esta calma permite também a nossa eventual transição entre editoras pelo impacto que geramos. Uma vez que as editoras onde se paga pela edição tendem a ter críticas literárias a tender para o negativo, por aceitarem tudo e sem padrões de qualidade literária, combater o nosso ego torna-se essencial. Assim, ao sermos publicados por uma destas casas, não ficamos com o nome manchado e mostramos que, mesmo tendo um selo negativo, trabalhámos e continuaremos a trabalhar para evoluir.

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