Obviamente que não sou crítico de cinema, mas a parte boa do entretenimento é a forma como nos leva a refletir sobre o artista, um estúdio, um tema, um argumentista ou um elenco. No caso da Marvel, e deste novo filme do Capitão América, não foi apenas sobre um filme que me pus a pensar, mas sim sobre o mítico Universo Cinematográfico da Marvel e até que ponto o seu estado atual pode ensinar um autor sobre o que evitar no momento da criação.
Capitão América traz, realmente, um novo mundo?
Parece irrisório e até utópico pensar neste filme a ser lançado este ano, quando, do outro lado do Atlântico, temos um presidente que contradiz – e muito – o foco que Capitão América 4 quer dar ao espetador. No entanto, aqui está ele. E com ele, a estreia de Harrison Ford no MCU, uma estreia que, na minha opinião, funciona bem. A identificação com o seu papel foi fácil, até porque todo o filme procura sobreviver através desse apelo emocional, ao mesmo tempo que vai buscar ecos ao antigo filme Hulk para prolongar algumas narrativas. É uma forma interessante de criar algum complemento às cenas de ação.
O Capitão América nunca esteve entre os meus heróis favoritos, mas admito que esta versão de Anthony Mackie conseguiu trazer uma maturidade diferente à personagem, algo que já se tinha sentido na série O Falcão e o Soldado do Inverno. O filme mantém a tradição do MCU de misturar drama e thriller, mas, de forma surpreendente, troca a típica tensão entre os EUA e a Rússia por um conflito com o Japão. Uma mudança bem-vinda, especialmente porque a geopolítica habitual destas histórias já começa a ser um cliché.
E, no entanto, o filme falha noutros aspetos. Para mim, um dos grandes problemas é a falta de atenção dada ao tal Eterno que ficou congelado na Terra desde Eternos. Parece que esta narrativa surge apenas para ser resolvida à pressa, sem grande impacto. No final, a história acaba por ser relativamente simples, e o próprio vilão não se destaca em nada. No fundo, este filme parece mais uma formalidade: uma apresentação do novo Capitão América ao mundo, e pouco mais.
O que pode um autor aprender com isto, afinal?
Lembram-se de ter referido como a personagem principal está mais madura graças à série do Soldado do Inverno? Pois bem, para quem não acompanhou a série, ou não se lembra de todos os pormenores, isso pode ser um problema. Este é um dos maiores desafios do MCU atualmente: a dependência excessiva de séries e filmes anteriores para que um novo título faça sentido. A Disney já reconheceu que lançou demasiadas séries em pouco tempo, mas, na prática, continua a criar uma experiência confusa para o espetador. Ao sair da sala, dei por mim a questionar-me sobre o que realmente aconteceu com o Soldado do Inverno – porque, tendo em conta este filme, o seu destino parece contraditório com o que já foi mostrado e com o que está previsto para os Thunderbolts.
E é aqui que está a maior lição. Ao criar uma história – seja um universo interligado como o MCU, seja um livro, uma série ou qualquer narrativa – é essencial garantir que o leitor ou espetador não se sente saturado ou perdido. Caso contrário, o que devia ser uma experiência de entretenimento transforma-se num esforço para juntar peças soltas. E isso pode afastar o público em vez de o aproximar.
Um mundo “novo”
Apesar de Capitão América 4 ter conseguido gerar o lucro suficiente para cobrir a produção (sem contar com o marketing e distribuição), não sinto que acrescente muito ao MCU. A existência da série anterior torna este filme quase redundante. E a cena pós-créditos? Simplesmente lamentável. Básica, previsível e sem qualquer impacto real, deixando ainda mais dúvidas sobre a direção desta fase da Marvel.
Estarei a crescer? A exigir mais? Talvez. É este um mau filme? Não, de todo. Existiram cenas de ação fabulosas e ambientadas em novos ambientes. Infelizmente, não senti de todo este “admirável mundo novo” do título. Quero acreditar que, num futuro, conseguiremos perceber para onde caminha esta saga.

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