Amália Hoje e o poder da intemporalidade

Lembro-me bem do lançamento do single “Gaivota” e de como rapidamente fiquei rendido. Na altura, já com algum dinheiro de bolso, recordo-me de ter comprado o CD para oferecer à minha mãe e, secretamente, o ouvir para meu deleite. Desde então, fui acompanhando o percurso dos Amália Hoje, vendo concertos serem anunciados, incluindo no Castelo de Alcobaça, sem nunca conseguir marcar presença. Agora, mais de dez anos após o lançamento do álbum, em 2009, e com uma maior independência, consegui finalmente assistir a um destes espetáculos com duas pessoas que me são importantes: o Ricardo e a Sofia. Aconteceu no passado sábado, dia 1 de março, e ainda hoje a experiência ressoa em mim.

A magia de Sónia Tavares

Tenho plena consciência de que os Amália Hoje são muito mais do que apenas a voz da Sónia Tavares. No entanto, foi a sua interpretação dos novos arranjos das músicas de Amália que me conquistou de imediato. A sua entrega emocional e a intensidade que coloca em cada letra transportam-nos numa viagem única. Desde a mítica “Gaivota” até “Fado Português” e aquela que se tornou uma das minhas favoritas, “Medo”, cada tema foi uma experiência arrebatadora.

Com um concerto gravado para a posterioridade pela RTP, que nos trouxe ainda a estreia de uma nova versão de “Lisboa Não Sejas Francesa”, fui inicialmente pelo encanto da voz de Sónia, mas fiquei pelo talento coletivo do grupo.

OS Amália Hoje

Sónia Tavares mostrou-se graciosa, não apenas na sua interpretação emotiva, mas também nos sorrisos e na entrega genuína ao público. A presença de Fernando Ribeiro e Paulo Praça, aliada aos arranjos e explicações de Nuno Gonçalves, trouxe uma harmonia e envolvência singulares ao espetáculo. O mais extraordinário? A forma como todos na sala estávamos a cantar em português, revivendo uma personalidade que, graças a esta reinterpretação, é trazida de volta à memória e à vida. Destaco ainda o coro e a presença da Orquestra Sinfónica do Porto, com elementos cuja atuação tinha visto no espetáculo que fui.

O concerto permitiu-me também redescobrir Amália Rodrigues, não apenas através das suas canções, mas também das entrevistas que foram intercaladas ao longo do espetáculo. Conhecer a sua personalidade através da voz e do legado que deixou foi uma experiência enriquecedora. Destaco ainda a magnífica produção luminosa, fabulosa e que elevou a experiência das músicas. Essas continuam profundas e, anos mais tarde, percebo como não só tocam o amor ao país, como a emoções profundas de liberdade, receio, morte e renascimento.

O Coliseu do Porto

Este tem sido um ano de estreias para mim, e este concerto levou-me pela primeira vez ao Coliseu do Porto. Fiquei encantado com a estrutura e disposição da sala, que permite uma boa visibilidade do palco a partir de praticamente qualquer ponto. No entanto, senti que as galerias – onde fiquei – poderiam ser remodeladas para proporcionar mais conforto aos espectadores. Afinal, com bilhetes a rondar os 30€, acredito que o público espera uma experiência que não só encante, mas que também motive a continuar a frequentar estas salas icónicas.

No final, saí com o coração cheio e com a certeza de que este foi um concerto que ficará na minha memória por muito tempo. Fica para a posterioridade a gravação que, mal esteja disponível, será para rever.

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