Leiria, sempre

Tenho a sorte de, apesar de viver no Porto há quase dez anos, ter a minha cidade natal bem presente em mim. Não só pela família, claro, mas pelas memórias que vivem em quase todas as pedras da calçada, nos diversos momentos que ali experienciei — quer sozinho, quer com amigos, colegas e família. Isto levou-me a perceber, não só a sorte que tenho em ter duas cidades que amo de igual forma, como também a dependência que tenho das duas.

Regressar a Leiria?

Tem sido comum, nos últimos anos e com os diversos desafios em termos sociais, profissionais e económicos, questionar-me se seria capaz de voltar para Leiria. Para esta bela cidade no centro, que muitos acreditam nem existir. E, por mais que adorasse que a resposta fosse simples, é, na verdade, cada vez mais difícil. Há uns anos, Leiria não tinha o foco e a vida que hoje tem em questões culturais, de empregabilidade ou habitação. A região cresceu tanto, e o seu futuro é tão risonho com o TGV, que é inevitável questionar até que ponto faria sentido trocar o Porto pela minha terra natal.

Leiria ganha, claro, não só pelo peso do passado, mas pelas perspetivas de futuro, possíveis graças a essas mesmas experiências passadas em família. Mas o Porto foi, e é, a cidade que me continua a dar não só a independência certa, como a variedade que ainda sinto faltar neste meu centro de Portugal.

A mudança custa?

A minha madrinha falou disto há uns anos, e sou muito assim. Apesar de amar ter a minha casa, a mesma é feita de memórias, pelo que mudar de espaço nunca seria, para mim, catastrófico. Mas o peso das memórias na envolvência seria, sim, um fator que custa. Enquanto penso nisto e caminho pelos diversos trilhos de Leiria — completamente ausentes nas grandes cidades — apercebo-me de que esta dualidade, de ter duas cidades na alma, é algo tão parte de mim que este dilema deixa de ser um dilema, para se tornar, na verdade, algo que me dá paz de espírito.

É saber que, por mais que as coisas se afigurem caóticas na minha vida a norte — entre trabalho, estudo e a ginástica da vida pessoal e dos hobbies — tenho uma cidade inteira carregada de significado que me acolhe nas vindas que cá faço. Apesar de corridas, as viagens, por virem essencialmente ao fim de semana, são vividas com gosto. E é com gosto que uso estes momentos como terapia holística à minha sanidade mental: caminhar junto ao rio Lis e lembrar-me das caminhadas com os meus pais; recordar que foi ali que tomei a decisão de estudar no Porto; relembrar os encontros em diversos restaurantes, os filmes nas idas ao cinema e, claro, as peripécias em casa ao viver junto dos meus primos.

Talvez seja isso crescer: perceber que o nosso coração pode, de facto, morar em dois lugares. Que não precisamos de escolher um lar quando já temos dois. E que, em vez de ser um fardo, isso é um privilégio raro. Hoje, mais do que nunca, sei que pertenço aos dois lados da estrada — à intensidade do Porto e à tranquilidade de Leiria. E é nesse meio termo, nesse ir e vir constante, que encontro a melhor versão de mim.

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