A respeito do Dia do Livro e dos Direitos de Autor

Já são vários os anos em que partilho pensamentos e reflexões sobre o Dia do Livro e dos Direitos de Autor. Hoje, sinto que o discurso precisa de acompanhar e espelhar a realidade em que vivemos.

O mercado mudou

Se, há uns anos, o grande apelo era simplesmente à leitura, assistimos agora a verdadeiras revoluções nos hábitos dos leitores portugueses. Não falo apenas do aumento no número de livros vendidos, mas também da proliferação de iniciativas nacionais e, finalmente, da possibilidade de requisitarmos e-books nas bibliotecas. Os e-readers popularizaram-se e, com a chegada dos modelos a cores – como aconteceu com a Kobo no Ocidente –, o interesse no sector cresceu ainda mais. Este é, sem dúvida, o mercado que teria desejado há uns anos: não só se vendem mais livros, como o papel dos bookstagrammers ganhou destaque, os eventos literários e as edições especiais multiplicaram-se, e temos cada vez mais autores portugueses a emergir. Confesso que, apesar de alguma apreensão inicial, perceber que esta mudança veio para ficar e que se estende a tantas áreas deixa-me verdadeiramente satisfeito por poder testemunhá-la.

Contudo, nem tudo são boas notícias, e é precisamente sobre algumas dessas polémicas que dedico parte desta publicação…

A Inteligência Artificial

Tenho uma publicação já preparada sobre o impacto da IA na escrita, além de outra, mais antiga, sobre as formas como pode ajudar um autor. O certo é que, nestas comemorações – que deviam ser diárias – falar de direitos de autor tornou-se quase um lugar-comum, ao ponto de originar julgamentos hipócritas e esquecimentos de princípios fundamentais.

É curioso notar que, sendo a IA uma ferramenta cujo uso depende sempre da escolha humana, se critique com tanta facilidade quem a utiliza, ao mesmo tempo que muitos não contribuem para a defesa dos direitos de autor no seu dia-a-dia. Continuamos a ver quem leia sem recorrer a formatos ou cópias legítimas, quem consome cinema sem ir ao cinema, festivais, adquirir um serviço de streaming ou comprar um formato físico, e o mesmo se aplica à música, ao teatro ou à informação, preferindo fontes de duvidosa credibilidade em redes sociais.

É evidente que nem todos têm – ou podem ter – acesso ao cinema, ao livro, ao e-book ou à cópia física, muitas vezes por razões económicas. No entanto, com a biblioteca digital em crescimento e a possibilidade de valorizar quem cria, seja pelo tradicional passa-palavra, seja por assistir ao conteúdo nos canais disponíveis, encontrar este equilíbrio parece-me cada vez mais essencial. Não só porque permite valorizar e proteger aquilo que nos rodeia, mas também porque nos coloca, como comunidade, em melhor posição para responder aos desafios – e aos perigos ainda desconhecidos – que a Inteligência Artificial pode trazer.

Assim, apesar deste dia ter sido celebrado a 23 de abril, é todos os dias que devemos fazer uso da nossa empatia e do que nos torna humanos, e saber não só a importância de apoiar e valorizar qualquer forma e representação de criação, como de nunca esquecer de que, ao apontarmos um dedo, temos outros apontados a nós e que talvez nos demonstrem que a luta deve ser transversal a todas as áreas.

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