Foi em 2010 que comecei a escrever de forma prolífica e, entre diversas séries online, acabei por, em 2014, enveredar pelo mundo dos livros. O verão foi sempre sinónimo de término ou início de uma história. Não era apenas o mês em que tinha férias escolares, mas também aquele em que ia para o Algarve e, na varanda da casa, durante o almoço e após o jantar, escrevia. Foi assim com O Esquecido, O Dislike, O Que Nos Magoa, O Amigo e, mesmo que não nessa localidade, acabei A Ideia de Nós.
No verão passado, também durante as férias, terminei uma história e, pouco tempo depois, iniciei outra. Desde 2010 até 2024, não houve um único ano em que deixasse de escrever. Aproveitava sempre as férias para isso. Mesmo quando tive o meu primeiro emprego, conseguia, em agosto, três semanas para me dedicar quase inteiramente à escrita.
Agora, apesar de já não estar nesse trabalho, os estudos têm-me tirado tempo. Poderia aproveitar as férias para escrever, mas, pela primeira vez em 14 anos, não produzo nada de ficção.
Sinto-me livre
Com os meus livros a saírem no final do ano, a pressão para terminar tudo em agosto, para depois rever no mês seguinte, era enorme. O mesmo acontecia a nível criativo: ao terminar um projeto, ficava ansioso por começar outro. Sentia-me revigorado e queria colocar tudo o que aprendera no novo manuscrito, ainda quente na minha memória.
Hoje, neste agosto, apesar da saudade de escrever, sinto-me livre. Sem pressões. A saborear o meu ritmo, as minhas leituras e o meu espaço. Tenho imensa vontade de voltar a construir uma história, mas, ao mesmo tempo, tenho-me estimulado tanto a nível cognitivo que as ideias surgem constantemente. Curiosamente, um género tem-se destacado nas histórias que quero escrever: o romance. Quando o farei? Essa é outra questão.
Quero voltar a “escrever”?
Provavelmente estão a ler isto e a revirar os olhos. Como posso falar disto outra vez, quando continuo a escrever aqui e para um site de tecnologia? Pode ser difícil de perceber, mas a escrita literária não é apenas diferente: transcende-me. Não é “só escrever”. É viver com as personagens que crio a cada parágrafo, dar forma a uma narrativa que me tem de agradar e que, ao longo de meses, levo até ao fim.
Uma publicação numa rede social, blogue ou site é estática, quase factual. A emoção que a motivou é minha e, inevitavelmente, desvanece-se. Um livro, esse, é intemporal. Mesmo que fique na gaveta, cresce comigo. As personagens vivem comigo e, no final da jornada, uma parte de mim fica lá, guardada.
Quero voltar a escrever. Tenho saudades de visitar as personagens do manuscrito que abandonei no ano passado. Mas, ao mesmo tempo, esta liberdade tem sido maravilhosa. Sinto-me a regenerar e sei que, mesmo que só retome no próximo ano, ou até no seguinte, precisava deste intervalo. Afinal, fiz jus à minha palavra: abrandar para poder estar aqui, a refletir, saudoso e nostálgico, mas com a certeza de que a escrita, apesar de intrínseca a mim, também merece o seu descanso.

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