Estamos em 2021, mas em centenas de milhares de comentários online, a guerra entre diferentes tipos de publicação vai crescendo. Por um lado, os autores amargurados com experiências passadas e de insucesso, noutro, temos os que defendem a publicação por “editoras Tradicionais”. Como se não bastasse, acresce o fator de “edição por editoras Vanity” e os que acreditam que o futuro é a publicação de autor e que não há nada melhor. Não fosse tudo isto cansativo, cada vez mais ganho uma opinião própria e que foi solidificada por aquilo que o CEO da Cultura Editora refletiu no podcast “É Outra História”.

Não existem editoras Vanity nem Tradicionais

O mercado editorial tem-se transformado. Cada vez se torna mais acessível publicar em Portugal. E, se temos editoras que o fazem, temos também diversos serviços capazes e que vão desde a Amazon até à Kobo ou, recentemente, um serviço de impressão fornecido pelo grupo a que pertence a Chiado Books (antiga Chiado Editora).

É nesta transformação que muitos autores procuram a sua sorte e “perdem” tempo com e-mails complexos e apelativos para atrair uma qualquer editora. Para muitos, a edição independente surge só em último recurso e, neste caminho, compreendem que muitas respostas não são como esperavam. E, quer estas sejam de e-mails automáticos a recusar ou indicar que a espera demora até 12 meses, ou de que o investimento será comparticipado, dilemas surgem na cabeça do autor.

Decisões são tomadas e, no fim, o autor toma uma decisão que, naturalmente, tem o poder de afetar o seu livro e, quiçá, futuro. Infelizmente, o que tem acontecido é que em 90% dos casos, a experiência corre mal. Ou os livros saem sem qualquer divulgação, ou com erros, ou com promessas editoriais que são, na verdade, impossíveis de cumprir. Isto marca um autor – e já me marcou a mim -, ao ponto de começar a alimentar um estigma criado por um conjunto de editoras: o de que essas editoras são Vanity, pois publicam somente pela vaidade do autor. E isto, isto é errado.

Uma má experiência não generaliza o panorama

Dizem que não devemos meter “todos” no mesmo saco e, o que acontece com esta visão é isso mesmo. Torna-se fácil culpar uma editora para, mais tarde, se culpar um modelo de negócio. A mesma situação consegue ocorrer de forma inversa, em que me recordo de ler uma entrevista dada pelo Nuno Nepomuceno que indicava que não gostou de estar com a sua primeira editora.

Tudo isto parece fazer-me chegar a uma conclusão bastante clara e que, honestamente, colocaria fim a muito drama, dilema e sofrimento de autores (e, consequentemente, os leitores): o de que o que temos no mercado são editoras boas e editoras más.

Leitura Sugerida: “Há a ideia errada de que os livros são feitos em dias ou semanas. ” – Entrevista ao CEO de uma Editora – Diogo Simões (diogoafsimoes.com)

Posso estar a publicar no que muitos poderiam classificar como editora Vanity ou de copublicação, mas se eu não estiver a pagar e for bem tratado, faz isso uma má editora só por ser “Vanity”? E se eu estiver com uma editora “de renome” ao ponto de faturar centenas de euros, mas esta não me ouvir nas ideias ou não perder tempo a explicar determinadas coisas, faz desta uma boa editora por ser “Tradicional”?

O certo é que se o autor pagar para publicar, este pagamento pode muito bem ser correspondente a qualidade ou a algo realista. Também é certo que tal pode não acontecer e que implica que o autor tem de fazer o seu trabalho de casa ao perceber a experiência de outros autores e o que quer para si e a sua história.

Vou dar um exemplo concreto: quando assinei com a Chiado Editora, em 2013, tendo sido uma edição paga, senti-me enganado em algumas promessas. Contudo, no fundamental, cumpriram. Isto é: respondiam sempre aos e-mails de forma rápida e informativa, tinha acesso a relatórios de vendas e, se quisesse uma imagem promocional ou o livro num determinado sítio, elas faziam. Contudo, uma outra amiga autora não teve, de todo, a mesma experiência e nem a relatórios de venda teve direito. E às ditas promessas? Bem, na altura pensava ser tudo possível, o certo é que hoje, com um novo olhar, compreendo que são mais possibilidades que garantias. Isto é: para o livro ser traduzido tem de vender milhares de cópias e, mesmo que chegue ao Brasil pela via online (o que aconteceu), é preciso o autor investir em marketing. Reparem: se um autor é novo em Portugal, num país pequeno e onde se lê pouco, será exequível pensar que terá sucesso no Brasil se não existir marketing ou grandes investimentos? Para vender é também preciso chegar a livrarias e, muitas delas, podem não querer o livro. Isto faz com que esta opção de publicação seja uma má opção para muitos autores? Pode ser, se o trabalho feito pela editora for tudo menos isso: ainda hoje, a Chiado não faz revisão, por exemplo. E, a ajudar, publica tanto livro que o tempo dedicado a cada um é inexistente. Ou seja, cada experiência tem a sua validade e cada forma de crescer neste meio, também.

Amargura não leva a lado nenhum

Perdermos tempo em ressentimentos pode ser penoso, quer para nós, quer para a imagem que os leitores têm da nossa “postura comercial”. O certo é que, se perdermos realmente um bocadinho do nosso tempo a procurar exemplos no mercado, conseguimos perceber que apesar de o Nuno ter tido aquela experiência, está agora a reeditar a sua saga de estreia. No caso do famoso Pedro Chagas Freitas, este publicou 19 livros até chegar a uma editora com maior distribuição, como a Marcador. Se quisermos atravessar o Atlântico, encontramos o autor da famosa saga Eragon, o Christopher Paolini, que após mostrar a história aos pais (que fizeram a revisão), este editou (em 2001) de forma independente (os pais, ele era menor), e percorreu com a família diversos eventos para o vender até ser encontrado por um editor que o publicou por uma Editora (em 2003).

Não chega? A Colleen Hoover tem uma editora própria para algumas das suas aventuras e o seu nome é já tão grande que, mesmo não tendo o que poderia ser para muitos um grupo editorial forte, consegue vender direitos para outros países e ser um sucesso de vendas.

Ao querer-se categorizar cada forma de publicação acabamos por matar o livro e o trabalho que o autor faz. É certo que muitos podem ver uma editora como algo fundamental, outros como uma muleta, enquanto outros como uma família onde se sabe o que se espera. Por vezes o trabalho pode não ser bom, mas por vezes o autor tem a capacidade ele próprio de investir ou de perceber que tem de ser um camaleão no marketing.

Uma editora, por si só, não faz tudo ou, mesmo que aconteça, ao fim de uns meses deixa de o fazer por ter outras novidades. Isto é normal e tudo depende da ginástica do autor e da sua presença online. Se juntarmos isto ao estigma de que aquele livro é de uma “Vanity” ou de uma “Tradicional” e que a qualidade será terrível ou diferente, estamos a deitar por terra grandes livros, grandes autores e grandes editores.

Esta guerra não faz sentido

Ao alimentarmos estes pré-conceitos ferimos o mercado e acabamos por não nos focarmos no que importa: no elevar o trabalho de um autor. Esquecemos que existe independência no autor e que ele próprio pode recorrer a serviços externos antes de chegar a uma editora. Também nos esquecemos que, para muitos autores, a publicação independente é a resposta por conta de todo o controlo que conseguem ter. Na verdade, muitos que publicam por esta via recorrem a serviços externos de revisão e edição por forma a não enganarem os seus leitores. O mesmo torna-se válido com autores que publicam com editoras e que recorrem, ou a esses serviços, ou a punhados de leitores-beta e/ou exemplares de avanço para maximizar o trabalho final.

O certo é que após pensar em tudo isto, reuni um conjunto de ideias do que eu, e outros leitores e autores, consideram ser uma boa editora (a recolha aconteceu por meio do Instagram):

Uma boa editora é aquela que

  • tem uma boa comunicação
  • é transparente
  • ouve o autor e explica o que lhe compete
  • tem uma boa revisão
  • acompanha o percurso do autor
  • dá sugestões ao autor
  • tem uma boa capacidade de distribuição
  • segue uma linha editorial
  • redes sociais e online atualizadas
  • bom apoio ao cliente

Uma má editora é aquela que

  • oferece uma revisão parca ou que não a oferece de todo
  • dá respostas vagas ao autor ou não o esclarece
  • não cuida do livro no seu processo de paginação e impressão
  • tem uma expedição duvidosa
  • fraca presença social
  • não acompanha o autor após a publicação
  • não envolve o autor
  • não segue uma linha editorial ou esquema de publicação com sentido
  • faz promessas incapazes de cumprir ou que são infundadas
  • tem um mau apoio ao cliente

A título de nota, destaco que refiro uma “má expedição” e não “má distribuição”. Isto acontece porque, em muitos casos, se tornar relativo. Isto é, um livro pode estar numa FNAC, mas passada a consignação o livro sai do espaço ou, em muitos casos, os livros podem até estar numa livraria/espaço, mas fora dos olhares do público. Isto não quer dizer não considero uma boa distribuição algo fundamental, mas penso que se torna mais importante uma editora (ou autor independente), enviar os livros de forma rápida, eficiente e transparente.

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