São diversas as vezes que eu, ou outros autores, desesperam com os relatórios de venda. A alimenter isto pode estar alguma pressão editorial, financeira ou até mesmo o discurso de amigos e colegas escritores, com a típica pergunta: “Então, quantos exemplares já vendeste?”.

Apesar de compreendido este entusiasmo e até as expetativas, nem sempre estas palavras caem bem a um autor – seja ele estreante ou não. O certo é que a ansiedade começa a toldar-nos e aquilo que surgiu por prazer, acaba por se virar contra nós. Começamos a duvidar da nossa escrita, da nossa história e nem sempre consideramos outros fatores…

O mercado e a casa editorial

O mercado é facilmente saturado com novidades e, numa altura onde as redes sociais têm peso nas vendas, por fabulosa que seja a nossa história, nem sempre essa encontra o seu lugar.

Se a editora com que trabalhamos não conseguir igualmente dar ao autor uma leitura de mercado correta, facilmente este cria expetativas irreais e que o desmoralizam. Não podemos ainda esquecer que algumas casas que se intitulam como editoriais não fazem efetivamente o seu trabalho, acabando por prejudicar o autor e/ou a sua imagem no mercado.

OK, os livros vendidos podem importar…

Disse que as vendas não importam, mas não nos podemos esquecer de quem edita a comprar X exemplares ou em edição de autor e tem de recuperar, pelo menos, algum do investimento feito.

Isto é, por si só, uma grande pressão, e uma que pode facilmente ser contornada com diversas iniciativas como ofertas de exemplares para aumentar a conversa em torno do livro ou a campanhas de marketing nas redes sociais.

Independentemente disto, ao começarmos esta jornada temos de ter a consciência de quem nem sempre as coisas serão fáceis e que mesmo que os exemplares sejam a forma mais fácil de mostrar “ao mercado” o sucesso comercial, há outros fatores a ter em conta…

Passa a palavra e a carreira literária

Acredito que o primeiro livro será aquele que melhor se irá vender. É aquele que a maior parte dos nossos amigos e familiares irão comprar. No segundo as coisas poderão mudar um pouco. Quem compra acaba por ser mais quem realmente leu o primeiro e volta para mais, e o trabalho de marketing tornar-se realmente estruturante. Já deixamos de ter a força da ideia de que “é o primeiro livro” e teremos de ajustar as nossas expetativas. Claro que isto pode acontecer ao contrário, mas é importante ter consciência das hipóteses.

Todavia, por mais que as vendas oscilem, a continuidade na nossa publicação irá definir a forma como o próprio mercado nos poderá absorver. Será também forma de garantir que os nossos leitores, sejam eles quantos forem, falem do nosso trabalho a um ritmo que não esmorece e que acabe por atrair outros leitores.

Podemos pensar que isto é irrisório, mas diversos livros de autores como Adam Silvera ou Colleen Hoover só voltaram ao sucesso após se começar a falar novamente deles nas redes sociais. E falo de livros mais antigos e que, anos após a publicação, ganham relevo porque, pela continuidade dos autores em publicar, o público-alvo aumentou e potenciou estas vendas.

Então, mas as vendas importam ou não?

Irão sempre importar, mas é comum encontrarmos casas editoriais (quer cá, quer lá fora) que apostam no acreditar da voz do autor e no público que constrói a cada livro. Foi por isso que indiquei que as vendas importam, mas que as mesmas podem ser um bom ponto de partida para um segundo livro, e um terceiro, um quarto. É uma possibilidade de se trabalharem diferentes metas e perceber o que funciona.

Já vos dei o exemplo de autores americanos, mas posso dar-vos o meu. Quando publiquei O Que Nos Magoa, esse facilmente se transformou no livro que mais vendeu após o meu primeiro romance (lembrem-se do que vos disse do apoio por ser o primeiro livro). Este apoiar traduziu-se num falar constante que, mesmo após a sua publicação em 2019, continua hoje.

Porém, antes deste meu terceiro livro, publiquei um outro, um thriller: o Esquecido. Esta continuidade, e o de agora ter publicado o Dislike, leva a que novos leitores me descubram e leiam o Dislike e, logo depois, descubram o Esquecido (ou O Que Nos Magoa).

Isto tem acontecido, e vejo como acontece com todos os autores. É certo que as vendas importam para a sustentabilidade de um negócio, investimento ou aposta literária, mas o aumento do público irá sempre chegar por meio da nossa persistência.

Tenho ainda outros colegas que publicaram de forma independente e depois foram para uma editora para, logo depois, publicarem um livro seguinte de forma independente. O que se verificou foi um aumento contínuo de público. Dou-vos este exemplo para que compreendam que se a escrita for realmente uma paixão e se esquecemos as pressões externas, algo de muito bonito conseguirá acontecer.

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