E agora? Agora, estão provavelmente a divagar. A “não compreender”. A pensar: “mas toda a gente que leu disse gostar, como é que uma editora não gosta?”. As interrogações são infindáveis, e se por vezes nos ajudam, por vezes dão-nos um rombo. Não só na nossa confiança, mas na nossa paixão pela escrita e, ainda mais, pela nossa história.
Para muitos, pode ser estranha uma publicação destas, mas a mesma é cada vez mais necessária. Porquê? Bem, porque existe mais probabilidade de sermos recusados nos primeiros trabalhos do que publicar de imediato. Existem diferentes fatores para isso, e vou tentar explicá-los a todos.
O mercado
Não digo que este é o principal, mas é um “dos”. O mercado literário — como qualquer outro — tem o seu funcionamento e fantasmas. As editoras portuguesas recebem milhares de manuscritos por ano, pelo que selecionar os que vão integrar os seus catálogos ou planos editoriais torna tudo complicado. As próprias tendências de leitura podem ser um fator determinante nesse aspeto; por isso, apesar de a nossa história poder ser boa, talvez não tenha chegado ao nível de excelência. E lidar com isto, de forma indireta, pode ser muito, mas muito difícil.
Acresce ainda o facto de, em Portugal, ainda se ler pouco autores portugueses, pelo que uma editora inverter sozinha esta tendência é difícil. É um risco enorme para as editoras e os seus departamentos comerciais que pode levar a muitos desesperos.
A nossa escrita
Este, sim, é o pilar fundamental: a nossa escrita. Se temos uma recusa, tanto pode ser do mercado como pela nossa capacidade de escrever. Atenção: há muito mais do que isto envolto nesta palavra. Por vezes, podemos saber escrever brilhantemente, mas conceitualizar e executar uma história nem sempre corresponde a essa realidade. Podemos ter uma escrita fluída, mas uns diálogos plásticos, cenas sem sentido e até incongruências que ficam tão enroladas, qual novelo de lã, que desfazer esse imbróglio implicava reescrever toda a obra.
Aceitar assim que a nossa escrita — a nossa história — pode ser o responsável pela recusa não é nada fácil. O ter a noção de que algo que tanto trabalhamos “nada” vale para quem edita. Mas é isto que temos de trabalhar, e só é possível por meio de uma grande capacidade de introspeção.
Afinal, o que fazer?
Na verdade, é bastante simples. É o relembrar que escrevemos por paixão. Por nós, e só depois — eventualmente — para os outros, no caso de querermos que leiam a nossa história. É o saber dissecar a nossa obra e perceber se falha alguma coisa ao fazermos o exercício de nos metermos na pele do leitor e editor. Após este jogo: um que leva ao sofrimento, solidão, incapacidade de acreditar, podemos inverter o jogo. Dizer a nós mesmos que, havendo fatores que controlamos e outros que não, conseguiremos trabalhar nos que estão ao nosso alcance. É, contudo, no que controlamos que temos de apostar!
Falando de mim, foram diversas as vezes que fui recusado, ora iam levar para apresentação em edição editorial, ora sem obter resposta alguma. É nesta resposta que mais cresci. Muitos não sabem, mas algures no ano de 2010 escrevi um livro de fantasia chamado “Perdida”. A ideia, que envolve anjos, seria uma trilogia. Escrevi o livro, contente, e depois revi-o, igualmente contente. Queria imenso despachar “aquilo” para enviar para uma editora (só mandei a uma). Submeti pelo site e esperei. Esperei. Esperei. Esperei. Meses decorreram, e nada mudou. Até que quase um ano mais tarde, o que mudou, fui eu. Compreender como estava grato por não obter resposta. O que enviara era tão horrível que nem eu, como leitor e editor, publicaria. Podia ler, para me entreter, mas que não teria um, quiçá, valor comercial. Fiquei grato com esta “não resposta”.
Se dizem que no silêncio também encontramos resposta, no mundo editorial isso é aplicável todos os dias. Tanto por uma editora como por um leitor que, do nada, deixou de ler ou de dar feedback. Mas compreender este silêncio? Compreender as recusas? É doloroso. Duvidamos de tudo. Do que demos por meses. Ficamos sem vontade de continuar para qualquer outro manuscrito. Mas sabem? É esse continuar que, a mim, resulta. Aprendi tanto com cada manuscrito que escrevi que novas histórias até me parecem mais fáceis. Os obstáculos aparecem, mas recordar-me que escrevo, em primeiro lugar, por mim, faz tudo valer a pena. E, para ser sincero, muito mais do que eu gostaria de, por vezes, admitir. Especialmente nos momentos de melancolia e incerteza, onde um documento de mais de 100 páginas se pode transformar numa agonia.
Há algo, contudo, chave!
No meio desta dúvida, a melhor coisa a fazer é investir em nós e na nossa formação. Uma recusa ou um silêncio podem ser motivos fortes para ganharmos formação na escrita, nos reunirmos com outros autores e partilhar dificuldades e trocar ideias, assim como procurar literatura sobre o mundo editorial e o trabalho de rever e editar um manuscrito.
Neste ponto, recomendo a capacidade de admitirmos que não conseguimos, de todo, rever e editar o nosso próprio texto e, para tal, precisamos de ajuda de pessoas externas e qualificadas. São diversos os editores e revisores que encontramos, e sendo serviços pagos, é uma aposta que fazemos em nós e na nossa história. Atrevo-me ainda a dizer que é por aqui que devemos começar muito antes de enviarmos o nosso manuscrito a alguém.
Ter atenção ao desespero!
Frustrados e sem compreender, é comum olharmos depois para as alternativas à edição tradicional. Aqui encontramos as editoras vanity, que pedem dinheiro para publicar, e a autopublicação. Por tudo o que aprendi, nunca paguem para publicar. Exceto se quem vos ofereça essa proposta seja uma editora maioritariamente tradicional, com histórico de qualidade e profissionais formados, e que o financiamento que vos podem oferecer seja exequível para vocês e a vossa moralidade. Até porque, como já sabemos por conta de um relatório europeu, compensa mais empregar dinheiro em revisão e edição independente e de qualidade e num eventual designer externo e publicar de forma independente, do que recorrer a editoras vanity.
Não estamos sozinhos
É comum pensarmos que os autores publicados não têm medos. Isso é, na verdade, a mais pura das mentiras. Podem encontrar este tipo de resposta nas diversas entrevistas que os autores dão, mas é a verdade. Cada livro é uma explosão de sentimentos e emoções. A incerteza reina nesse novo mundo, mas lembrar-nos que outros, na verdade, nos podem compreender, pode ser a chave para reacender a chama que nos leva a escrever.
NOTA: Este artigo foi originalmente escrito em 2019, tendo sido revisto, melhorado e aprimorado em julho de 2023.

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