Foi uma viagem, uma que terminou dia 31 de agosto, mas, na verdade, foi das experiências mais únicas que tive. Podem perguntar-se o porquê, mas a razão é bastante simples e não depreende, necessariamente, do local: foi uma peregrinação. Mas, Diogo, és católico? Esta é, talvez, das maiores perguntas que me poderiam colocar, quer pessoalmente, quer neste contexto. E, de forma bastante inesperada, descobri uma resposta completa que partilharei convosco.
Como tudo começou?
Não será uma explicação propriamente longa, mas o meu tio, juntamente com outra residente de Leiria, organiza periodicamente peregrinações que juntam o turismo e o elemento espiritual. Organizando estas experiências desde 2013 nas paróquias locais, o destino deste ano foi a Polónia. Não só por ser terra do papa João Paulo II, como existia uma necessidade de ajudar o próprio país a atrair turistas após a pandemia e a guerra na Ucrânia. A viagem foi assim estruturada pela agência de viagens da região que planeou tudo com os correspondentes na Polónia. Assim, fomos 44 pessoas nesta aventura.
Ao início, dissocie-me de toda a ideia de ser uma peregrinação, mas surpreendi-me naquilo que encontrei na viagem. Com uma missa diária em locais de tirar o fôlego pela arquitetura díspar, pela história complexa do país, para almoços em restaurantes locais e vistas de me fazer desejar morar na cidade, os sete dias passaram a voar.
O programa das festas
A aventura começou na sexta-feira, logo à meia-noite e meia, tendo-nos levado para Cracóvia por meio de uma escala na Alemanha. Apesar do cansaço, foi com maravilha que me deparei com uma cidade grandiosa, limpa e movimentada. O centro histórico, sem qualquer tipo de trânsito, mostrava monumentos bem preservados e uma higiene de fazer inveja. Foi, na verdade, nestes primeiros momentos que desejei termos cá o mesmo. De existirem mais políticas amigas do ambiente e de proteção de património para cidadãos mais consciencializados da preservação. Os passeios largos, cheios de flores e ciclovias, pareciam ter sido criados de raiz e só queria caminhar naquelas ruas.
Com uma história pautada por diversas guerras por independência e de atrocidades dos tempos do comunismo e de países como a Alemanha Nazi e União Soviética, ver o determinismo em cada esquina foi algo amplamente fácil de perceber. Isso explica, depois, o grande relevo do catolicismo e da forma que o antigo papa deu no incentivo à luta. Algo posteriormente visível pelas enormes catedrais do primeiro dia. Aqui os guias locais foram fundamentais. O Jacinto, que fala português e que nos ia falando das lendas locais e de como, por exemplo, o dragão verde é o símbolo da cidade, mas que, por alguma razão, o comércio começou a vender gansos. Ou ainda quando estivemos acompanhados por uma freira bastante animada e divertida que contava os tempos da Santa Faustina que tinha visões e escreveu um diário (na clandestinidade) das suas experiências. Ainda no Santuário de João Paulo II encontra-se o seu sangue e a batina que usou aquando do seu atentado.












As experiências continuaram e os dias restantes levaram-nos a descobrir as minas de sal, com uma basílica a 135 metros de profundidade, assim como a vistas maravilhosas das montanhas. A arquitetura local é lindíssima e desejei que me saísse o euromilhões para comprar lá uma casa. As histórias foram muitas, sendo que destaco o elevador que nos levou até às minas, assim como as viagens de autocarro pautadas por conversas entre algumas das pessoas mais idosas e que nos arrancavam gargalhadas. O espírito foi sempre o mesmo: humano e de partilha, e isso refletiu muito na minha experiência.




















A visita ao Palácio Real foi deliciosa e o dia soalheiro elevou a experiência nas cores que banhavam o planalto. Ajudou também a experimentar descer uma montanha em slide com o meu irmão enquanto tinha como fundo a montanha que se assemelha a um soldado deitado, sendo que reza a lenda que esse soldado está lá para proteger a cidade e irá acordar quando necessário.
Foi difícil não ficar surpreendido
Estava constantemente a ficar de boca aberta. A dizer uau de uma forma tão inesperada que tirar fotografias era o motivo da bateria do meu telemóvel descarregar tão rapidamente. Mas não foi só o telemóvel a ficar sem energia, mas nós, ao ouvir a dedicação dos mineiros de sal que demoraram 68 anos a construir a basílica, ou como, na enorme escadaria de madeira, todos os anos um conjunto de bombeiros desafia-se a subi-las por 500€ e prestígio. Têm de ser rápidos e, claro, ir carregados com todo o uniforme e máscaras. Alucinante, não é?
Todavia, o mais impressionante, foi a passagem por uma localidade que todos conhecem só de se referir Polónia, e esse sítio é Aushwitz.
Auschwitz-Birkenau
A manhã começou doce ao provarmos um bolo regional delicioso. Porém, à medida que as horas se aproximavam, o ambiente mudou ao chegarmos aos campos de concentração. Para os que não sabem, são dois, sendo estes diferentes em estruturas e tamanho. A própria história é igualmente diferente, visto que o campo maior, anteriormente dividido em três partes, foi inteiramente construído pelos prisioneiros. A terceira parte, para tentarem apagar provas, foi destruída.














As imagens conseguem falar muito neste cenário mascarado pelo verde da natureza, mas a realidade era outra naquilo que sentia e na força que fazia por conter as lágrimas. Com grupos a chegar constantemente, foi-me difícil dar mais do meu tempo a ler todas as indicações e ver o que era possível. Foi, para mim, o ponto negativo da visita e que me fez, mal meter lá os pés, saber que queria voltar. Absorver o local, as memórias, e refletir na maldade humana que, a cada dia, se parece perto de repetir. Com imagens e factos impressionantes, como as 7 toneladas de cabelo de mulher que vimos, entrar numa câmara de gás foi o silêncio mais doloroso em que estive. Outra curiosidade é que existem planos para abrir mais dos blocos para visita, sendo que alguns dos disponíveis, como no “hospital” onde os nazis faziam experiências, não visitámos.
Fazer uma pausa
Falar destes temas é difícil para muitos e, pelas opiniões que ia tendo dos participantes, muitos nem queriam visitar tal local por parecer fora da realidade. O certo é que, e o que me levou a tirar fotografias com confiança, é a frase que está à entrada do centro, de como quem esquece a história está condenado a repeti-la. Esta citação de George Santayana levou-me a perceber melhor a relação que tenho com a fé e um eventual Deus. Sabem, quando estava em filosofia, o meu livro referia como a figura de Deus foi criada para dar alento à humanidade. Isso fez-me tanto sentido que, hoje, acredito no mesmo. A diferença? Bem, nesta viagem aceitei em pleno que aceito a ideia de Deus nos outros, a sua fé em pleno, e de como elas atuam ao ponto de me influenciarem em mim. Um ciclo da vida sem fim, de interações, humanidade, altruísmo e empatia. Assim, enquanto eu vejo esses comportamentos como demonstrações dos Direitos Humanos, os outros veem o mesmo com o prisma religioso.
Varsóvia e o mistério da comida estranha
Após visitarmos o santuário da Virgem Negra – que não tinha nada simétrico, o que era bizarro -, fizemos-nos à estrada para o último local: Varsóvia. E, se já estava impressionando com o país, fiquei encantado com uma capital poderosa, influenciada pela sua história com as guerras e independência, assim como das contribuições de artistas italianos. O tijolo vermelho continuou ainda presente do passado nazi, assim como as construções comunistas erguidas para mostrar poder e uma riqueza inexistente. Hoje a cidade vive e com quase um milhão de pessoas que se desloca só para trabalhar, fora os locais. Tal deve-se aos edifícios que começam a rasgar os céus e a querer esconder o palácio cultural e tecnológico por conta do edifício ser, até há pouco tempo, dos mais altos, mas um lembrete de um período negro pela sua época por conta dos russos.





























Os jardins são peças centrais no país, com centenas espalhados pelas cidades. O que visitámos, em Varsóvia e que chegou a ter residência do rei elegido pelo povo, é grandioso. Com uma manutenção que deve ser caríssima, passear pelo parque é um autêntico luxo cheio de história e descontração.








Apesar da viagem ser pautada pelo descanso de espírito e pelos nossos dedos que convertiam constantemente a moeda local para euros (o euro vale 4,4 mais que o zlote), os nossos estômagos estavam sempre expectantes da comida local. Tal deve-se ao uso constante da batata e de sopas que pareciam ser mais água com um caldo knorr que outra coisa. Nunca sabíamos bem o que comíamos, mas estou vivo após ter comido uma sopa de beterraba com a massa típica do país, que é cozida e recheada com várias coisas, como queijo e carne. Conseguimos ainda desfrutar de uns belos panados e, pelo tamanho deles, nem quero imaginar onde os vão buscar!
Um até já
Esta publicação meteu-me de novo no avião e consegui recordar cada dia com saudade e nostalgia. Não sei quando irei voltar à Polónia, mas a cidade ficou tão bem marcada no meu coração, que redescobri-la parece-me inato. Quer pelas paisagens, pelas cidades e espírito, andar pelas ruas fez-me sentir com esperança para o crescimento futuro das pessoas e pela vontade crescente de cuidarmos do que temos, sabendo sempre para que lado crescer.
Despeço-me de vocês, desejando comida portuguesa enquanto aprecio as recordações que trouxe. A maior parte tem âmbar, a pedra local.

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