As pessoas escrevem, mas, pelos resultados eleitorais, ninguém lê!

A minha relação com a escola foi desafiante. Não só lutava por me descobrir, sem saber que precisava de o saber, como por ter boas notas por mais que estudasse. Porém, existia uma disciplina que se destacava para além de ciências, como a disciplina de História. E, escrita com letra maiúscula, esta disciplina não só nos obrigava a decorar um monte de datas e nomes, como nos dava, e continua a dar, um olhar para o passado e as lições que dele podemos retirar.

Mas a escola cresceu mal, nesta História. Com diversos exemplos em países nórdicos de como a liberdade, tempos livres e criatividade devem ser estimulados para maximizar o potencial e diferença do ser humano, em Portugal continuamos presos a demasiadas horas letivas que, pelas próprias notas, revelam como não surte efeito. Isto leva a grande revolta, cansaço e sentimento de incompreensão de muitos jovens, que procuram, logicamente e no mundo online, o conteúdo rápido, potenciador do alívio imediato. Aqui existe o perigo real e um que refleti imenso na minha vida académica: a falta de pensamento crítico na era moderna.

Ao olharmos para esta realidade do tecido social aliada a uma vida política que parece mais um novelo de lã do que algo claro como a água, parece natural que ideias radicais e que ataquem os direitos surjam. Mascaradas em promessas, as mesmas revelam-se incompatíveis com a História e tudo o que sabemos dela. Podem pensar que me refiro somente ao tempo Nazi, mas atualmente, nos EUA e em estados conservadores, são já diversos os locais onde os livros são banidos ou fechados em invólucros de plástico por retratarem temáticas consideradas de “sensíveis” ou de “propaganda”, sem qualquer fundamente científico, psicológico e, quanto mais, humano.

O ser humano faz-se da diferença. É assim que evoluímos e, num mundo a transformar-se com a inteligência artificial, parece deveras contraditório e hipócrita criticar-se o que é artificial para, na esfera política, se eleger deputados que procurem acabar com a diversidade e diferença para moldar tudo a um mesmo padrão. Um controlável, sem acesso a conhecimento e incapaz de pensar.

Se estas ideias continuarem a crescer e que surgem da desinformação e da incapacidade de perceber que, se se fala atualmente com frequência de direitos das mulheres ou LGBT+ é porque, durante séculos, foram ignorados e esquecidos, os meus próprios livros deixariam de existir ou, muito provavelmente, só poderiam ser acedidos em locais específicos. Isto não só silencia a criatividade e pensamento crítico que nos torna humanos, como leva à opressão, ao silêncio que, por sua vez, se pode transformar em ódio e violência.

Com isto, com tanto livro, filme ou série, parece que somos incapazes de pensar com empatia e de que, por mais que uma decisão não nos afete, pode afetar alguém próximo e de quem gostamos. E, honestamente, foi o que mais percebi com os resultados eleitorais do passado domingo, 10 de março. Como as pessoas não pensam sequer no melhor do país, porque se o fizessem, iriam perceber que retroceder em direitos humanos é parar o desenvolvimento e o crescimento que, ironicamente, procuram. Em como diversas escolhas impactam a vida de pessoas que gostamos. A mudança tem de vir, assim, de cada um de nós, de mostrar como se quer mais, melhor e com consciência.

Alguns dados para ajudar a refletir

Quando escrevo um livro, gosto de o sustentar na realidade e perceber como a posso contar ao leitor comum. Foi a pensar nisso que, na altura, a minha editora me pediu para escrever umas brochuras que iriam acompanhar o livro. As mesmas juntam dados estatísticos com o que se segue do crescimento do ódio em Portugal. Com dados relativos até ao último trimestre de 2023, partilho convosco o que, na altura, escrevi:

Violência no Namoro e Crimes de Ódio contra a comunidade LGBTQI+

Vivemos num mundo globalizado e em constante transformação pelas diversas diferenças que enriquecem a vida e convivência humana. Nisto, a internet e redes sociais surgiram e evoluíram como forma de elevar a comunicação a níveis que julgávamos impensáveis. E, com diversos elementos positivos, são os negativos que marcam as relações atuais. E, quer esta seja para com familiares ou os nossos pares, o “estar-se online” contribuiu para a disseminação de diversos crimes, desde a perseguição, ao bullying e ódio gratuito e a uma violação da nossa própria privacidade em países onde a mesma está, todos os dias, em constante desafio.

A violência no namoro, não sendo algo novo, admite atualmente novas dimensões e que chocam com estas novas potencialidades da internet. Só em 2022, a PSP e GNR receberam mais de 3 500 queixas relativamente a abusos no namoro e com uma idade média de 15 anos pelo estudo da UMAR, que indicou ainda 45,1% das estudantes indicar ser violência psicológica, nomeadamente com o controlo. O que torna estes dados mais alarmantes? O facto de que, pelas notícias datadas de 14 de fevereiro de 2023, da SIC Notícias, do Público e do portal governamental CIG – Comissão Para a Cidadania e a Igualdade de Género -, 67,5% dos 6 000 jovens inquiridos neste Estudo Nacional sobre a Violência no Namoro 2023(UMAR), “não perceciona como violência no namoro, pelo menos, 1 dos seguintes comportamentos: controlo, violência psicológica, violência sexual, perseguição, violência através das redes sociais e violência física”.            

Se aliarmos estes dados às camadas da população que são ainda marginalizadas, em que pelo relatório da Rainbow Europe de 2023, só a ILGA Portugal relatou um total de 830 pedidos de ajuda relativamente a violência em casa, do qual 268 destes pedidos foram de pessoas que o fizeram pela primeira vez. Deste total, 220 casos foram de violência doméstica, com 71 dos mesmos a ser relativas a violência de género. Tendo o mundo passado por uma pandemia, estes dados serão certamente crescentes, mas ainda com uma exposição ameaçada pela proliferação de discursos de ódio, como por exemplo por um professor da Universidade de Aveiro, que indicou que a comunidade LGBTQ+ não passam de organizações terroristas e pediu uma “inquisição” para limpar “este lixo humano”, ou dos diversos artigos publicados em resposta a uma campanha do canal Fox Life que procurava consciencializar a população para termos LGBTQ+. Estas questões podem parecer isoladas, mas o certo é que temos assistido a agressões físicas violentas a casais da comunidade, resultando em hospitalizações. O mesmo para a forma como as forças de segurança lidam com esta temática, com o relatório a indicar uma reportagem jornalística que dava conta de grupos online secretos com quase 600 membros da PSP e GNR a expressar misoginia, xenofobia e homofobia. Num ano de que marca o 41 aniversário da despenalização da homossexualidade em Portugal, a existência de mais formas de consciencializar as diversas populações se revela de extrema importância, em especial por o país só apresentar uma percentagem de 62% no que refere aos direitos humanos LGBTI.

Resposta

  1. Avatar de Escrever com liberdade – Diogo Simões

    […] Equidade. Palavras fortes, mas que, nestes 50 anos, sinto perderem o seu fôlego. Quer seja pela descrença geral no valor da humanidade e no que significa ser-se humano, eu, enquanto autor, sinto que falhei. Sim, usei a minha liberdade […]

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