30 anos: uma carta a um eu mais jovem

Desde que existe escrita e a noção de terapia, a ideia de escrever ao nosso eu do passado ou futuro tem estado presente. Não só nos ajuda a perceber e a interpretar o agora, como também a refletir sobre a nossa jornada. Hoje, ao celebrar os meus 30 anos, decidi pôr isso em prática.

Olá, Diogo.

Não sei se tens noção, mas no ano em que te escrevo, estamos a fazer 30 anos. Provavelmente, ao entrar na adolescência, estás longe de imaginar o futuro que nos espera, mas deixa-me que te diga: é surpreendente e completamente inesperado. Talvez a parte mais chocante seja o facto de estares a viver longe de Leiria. Sim, a cidade que nos viu crescer. Mudámo-nos para Vila Nova de Gaia depois de concluirmos uma licenciatura em Serviço Social para fazer um mestrado. Sim, apesar de teres seguido a área das Ciências e Tecnologias, acabaste por descobrir o que raio querias fazer. Sei que nunca sofreste muito com essa dúvida, mas também sei que, por mais que estudássemos, as nossas notas estavam longe de ser brilhantes. Talvez porque lidávamos com questões internas que não compreendíamos na altura? Porque usávamos a escrita como um veículo para escapar de algo que, na época, não nos parecia tão doloroso assim, apesar de algumas piadas na escola sobre uma orientação sexual que tardámos a confirmar e validar?

Sim, aproveito para te dizer que faz quase 10 anos que nos assumimos perante os nossos pais e família. Foi na praia, com o empurrão da nossa prima de França e, olha, foi um momento muito bonito. Imortalizámo-lo num livro. Sim, num livro, porque conseguimos mesmo publicar. Essa jornada dava pano para mangas, já que foram muitos os momentos, mas publicámos cinco livros físicos e dois e-books na Kobo. Não sabes o que é a Kobo? Não te preocupes, quando descobrires, não vais querer outra coisa!

Adiante: ganhámos imensos leitores e escrevemos diversas histórias com problemáticas profundas. Sei que continuas reflexivo e a guardar muito para dentro de ti. Acredita, vai chegar o dia em que vais conseguir libertar parte da tua voz. Eu já estou a saborear isso e é fantástico. Mas também te digo que viver enclausurado dentro de nós, sem definição e sem que estes temas sejam corretamente falados, deixou marcas em nós. Algumas talvez venhas a descobrir, e lamento por isso. O certo é que, ainda hoje, ficamos retraídos em algumas coisas e na essência do nosso eu. Espero que nos próximos anos consigamos descomprimir mais por nós…

Gostava de te dizer que continuamos a publicar histórias, mas fizemos uma pausa após alguns contratempos com a última editora, uma tradicional, vê lá tu, que fehcou! Posso dizer-te que, na altura, reagi bem, mas hoje sei que fiquei triste e bastante pensativo a respeito do mercado. O certo é que agora estamos também sem tempo, sabes? É que, depois de estudarmos, decidimos fazer um curso profissional na área da informática e programação. Sim, voltámos a estudar, a ingressar numa licenciatura e até a receber um diploma de mérito! Lembras-te de quando disseram aos nossos pais que éramos burros? Olha só onde chegámos. Acredita, ao receber o diploma, sozinho, numa noite fria de outono, no Cais de Gaia, emocionei-me por nós.

Antes disto, trabalhámos na área social, sabes? Foi desafiante. Pusemos a nossa paciência, resiliência e inteligência emocional a níveis históricos, mas aqueles jovens mereciam. Mereciam que déssemos de nós, sem julgamentos e com a máxima que sempre nos repetimos ao crescer: queremos ouvir os outros, o seu lado, mesmo que todos os outros achem que estão a brincar ou que não devem ser levados a sério. Chorámos algumas vezes com este trabalho. Com o desgaste. Com as situações que líamos em relatórios e com as quais lidávamos diariamente, dia após dia. Nem sempre fui elogiado pelo meu trabalho. Na verdade, parece que o elogio é raro no mercado de trabalho, mas posso dizer-te que, no ano passado, quando saí da área, isto mudou e agora somos reconhecidos pelo que fazemos. Isso valida tudo, sabes? Especialmente agora, que, depois de alugarmos uma casa, comprámos uma e partilhamos com o nosso namorado e mais duas pessoas, para ajudar com as contas ao fim do mês.

Poderás achar estranho ou sentir-te incapaz de imaginar isso, mas somos felizes, sabes? Já houve uma altura em que chorei por não estar ao pé da família num qualquer evento, mas amadureci e, com isso, cresci feliz. Vais ser feliz!

Não sei o que os próximos anos trarão, mas quero dizer-te para continuares a fazer o que estás a fazer: nunca dizer nunca, não duvidar de ti e não acreditar que as coisas devem ser feitas ao ritmo que a sociedade dita. Acredita, aqui onde estou, o ritmo da sociedade está completamente fodido.

Escrevo-te isto com alguma comoção, mas tenho orgulho em nós. Nos amigos que construímos ao longo da vida, parecidos com aqueles que sonhávamos nos livros de fantasia que líamos. Serás magoado algumas vezes, mas relaxa. Vales a pena. Valemos a pena, e irás perceber isso! Gostamos de tecnologia e encontrámos pessoas para falar disso, assim como companhia para jogar jogos de tabuleiro, ir ao cinema ou a espetáculos. Até já fomos à Disney mais do que uma vez e sem ter de pedir autorização. Mas também te digo: tudo o que os pais nos ensinaram se aplica na vida adulta. Eles têm mesmo razão.

Vamos a mais 30 anos?

Abraço forte,

De ti, para ti.

Respostas

  1. Avatar de Beta (prima)

    Trabalhaste arduamente e é por isso que é bem-sucedido. Que este dia te inspire para os próximos passos da tua vida. Estamos muito orgulhosos de ti! Parabéns

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    1. Avatar de Diogo Simões

      Obrigado ❤️❤️

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