Caros autores, tenhamos calma!

Tem sido frequente, ao longo dos anos, falar das diversas peripécias do mercado editorial e dos seus desafios e constantes mudanças. Há algum tempo que não o faço, mas chegou a altura de refletir sobre algo que cada vez mais vejo, leio e ouço: a forma como alguns autores são levados a pensar, alimentando ideias que, por mais belas que sejam, podem ser ilusórias.

Disclaimer!

O que vou refletir aqui é algo pelo qual eu próprio passei. Já fantasiei, idealizei e discuti este tema em diversas conversas entre amigos e em casal. No entanto, quando se trata de um autor fundar uma editora, deixem-me dizer-vos: se o capital e os contactos não forem vastos, não serve de nada!

Criar uma editora não é solução

Podem achar que estou a ser desmancha-prazeres, mas acreditem: ao longo dos anos, tenho visto cada vez mais autores a considerarem criar a sua própria editora, apenas para continuarem desiludidos com o mercado e as suas limitações.

A ideia de ter uma editora própria pode parecer maravilhosa. E sim, há vantagens. No entanto, acompanhando de perto uma colega autora neste processo, percebi como é algo extremamente árduo e muito longe de ser um mar de rosas.

Fundar uma editora não é simples. É necessário registar a marca, garantir que o nome escolhido está disponível e, depois, começar a publicar. Essa parte pode parecer fácil, mas sem editores, revisores, paginadores e designers independentes, o processo pode rapidamente sair furado. A probabilidade de se distribuir no mercado obras de baixa qualidade só prejudica a reputação do autor, que muitas vezes iniciou esta jornada precisamente para melhorar a sua posição no mercado (voltarei a este ponto mais à frente). Além disso, a difusão dos livros é outro problema: as distribuidoras trabalham com grandes volumes e exigem catálogos vastos para considerar a distribuição em livrarias físicas.

A expectativa

Se é necessário um catálogo, isso implica a publicação de outras obras. E isso, por sua vez, exige capital para garantir impressões de qualidade e a preços competitivos. Mais cedo ou mais tarde, o autor que sonhava ter independência tornar-se-á também um empreendedor a tempo inteiro, com todas as responsabilidades que isso acarreta. E se não existirem critérios rigorosos de qualidade, a credibilidade da editora ficará comprometida. Este problema é visível em várias editoras recentes, onde a revisão deficiente e a fraca qualidade geral dos livros prejudicaram a sua reputação (como aconteceu com a Chiado Editora na sua fase mais crítica). Além disso, muitas destas editoras acabam por depender de feiras do livro ou distribuidores muito específicos, limitando o seu alcance.

Talvez, para alguns, isso seja suficiente. Mas se os livros são para durar e deixar marca, não deveremos assegurar a máxima qualidade possível e proteger a integridade de todas as partes envolvidas?

Mas há autores que conseguem…

É verdade. Um exemplo frequente é Colleen Hoover, que criou um selo editorial próprio para os seus livros. No entanto, tinha recursos financeiros, uma gestão bem definida e uma base de leitores fiel. Além disso, alguns dos seus livros nem chegaram às listas de bestsellers devido à ausência de um selo editorial tradicional. O que ajudou a autora foi o seu impacto comercial, permitindo-lhe vender os direitos dos livros a editoras tradicionais e formar parcerias estratégicas com a Amazon. No fundo, Hoover criou um selo para a sua autopublicação – e fê-lo de forma estratégica e sustentada.

O que leva um autor a esta idealização e concretização?

Já refleti muitas vezes sobre este assunto, e sei que muitos leitores do blogue chegam aqui através de pesquisas que expressam desagrado e confusão sobre o mercado editorial. Esta frustração surge, muitas vezes, das promessas vazias de editoras vanity, da falta de apoio de editoras tradicionais ou da percepção de que a promoção e distribuição dos livros são insuficientes. Perante isto, a ideia de uma editora própria torna-se tentadora. Mas os casos de sucesso são tão raros que, se és autor e estás a ler isto, o meu maior conselho é: espera!

O mercado editorial exige perseverança, momento certo, talento e muita dedicação. Aprimorar o nosso trabalho deve ser a prioridade. Trabalhar desde cedo com editores e revisores independentes pode ser uma boa estratégia. O mesmo se aplica a conversar com outros autores, assistir a seminários e workshops sobre literatura e estudar o mercado através de livros e artigos especializados.

Estou a desencorajar?

De todo! Pelo contrário. A inovação no mercado editorial português e europeu é essencial, e novas identidades e propriedades intelectuais são bem-vindas. O que defendo é que qualquer decisão – e ainda mais uma desta magnitude – seja tomada com plena consciência do que implica, tanto nos seus aspetos positivos como nos desafios que apresenta.

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