O plágio está longe de ser novidade no mundo artístico. Muitos, na verdade, acreditam que não se produz nada de novo há mais de 100 anos. Apesar de considerar esta visão extremamente exagerada, consigo perceber como, atualmente, é realmente mais fácil cair na armadilha da cópia e/ou inspiração. É isso que acreditam muitos leitores do último livro de Freida McFadden, “A Mulher no Andar de Cima”, ao compará-lo com “Verity”. E, tendo lido ambos, tenho algumas coisas a dizer…
Qual é a história de “A Mulher no Andar de Cima” e de “Verity”?
De forma resumida, e sem recorrer às sinopses, as histórias de Freida e Colleen convergem em diversos pontos: ambas centram-se num casamento, com um marido retratado de forma suspeita, e uma esposa de alguma forma incapacitada. E pronto, seria isto.
Não, não é só isto. Existe um elemento que, a meu ver, não beneficia em nada esta história, publicada em 2020, quando comparada com “Verity” (2018): a forma como, aos olhos de terceiros – neste caso, também duas mulheres –, o leitor entra e fica na dúvida, impulsionado por algo escrito por estas esposas, que nos pinta o cenário e alimenta as desconfianças em relação ao protagonista masculino.
Existem, realmente, parecenças?
Tendo lido as duas histórias, e tendo em conta todo o enquadramento, as bases da história de Freida são, sem dúvida, extremamente idênticas à narrativa que Colleen Hoover nos apresentou e que, no próximo ano, chega ao cinema. Não só o marido de ambas as mulheres é maléfico (ou supostamente, no caso de “Verity”), como a forma como o leitor chega a estas revelações é igual: um livro, um manuscrito, algo que a co-protagonista incapacitada utiliza para comunicar com a protagonista e a alertar. Não li ainda o capítulo extra de “Verity”, lançado mais tarde, mas de uma coisa fiquei a perceber com toda esta novela online: a única coisa que realmente difere nestas histórias é a execução.
Verity 2.0
O primeiro pensamento que me ocorreu ao terminar a leitura foi como “A Mulher no Andar de Cima” é um “Verity” em esteroides. Um livro construído, para lá das teorias da conspiração que sustentam “Verity”, para não só dar um final totalmente fechado e sem dúvidas, mas também elevar, no meu caso, o sentimento de agonia e terror quando comparado com a história de Hoover.
Apesar de, em termos de escrita e narrativa, Colleen Hoover dominar – e ainda o fazer no que toca a “Verity” –, Freida, apesar de usar exactamente as mesmas ideias, trabalha-as de forma diferente.
Poderemos considerar a execução como plágio?
Para mim, a grande questão está aqui, sabem? Sabemos que várias histórias altamente comerciais nasceram da inspiração direta noutras, como “As Cinquenta Sombras de Grey”, a partir de “Crepúsculo”, e como a autora da saga “Twilight” foi também acusada de plágio pela autora de “Os Diários de um Vampiro”. Mas, se nestes casos a inspiração serviu para criar enredos diferentes – a menos que, numa qualquer reedição de “Twilight”, Stephenie Meyer nos revele o lado sadomasoquista do trio romântico mais famoso do cinema –, no caso de “A Mulher no Andar de Cima” temos, claro, um cenário e condições socioeconómicas diferentes para a protagonista, bem como um final e desenvolvimento distintos, mas com uma base extremamente semelhante.
Será este livro então considerado plágio? Não sou advogado, nem conheço os contornos legais nos países de origem de ambas as autoras, mas parece-me que estamos, claramente, perante um plágio de ideias, onde Freida bebe diretamente da história de Colleen para lhe dar um twist diferente. Até que ponto é condenável? Isso cabe ao mercado editorial e, eventualmente, aos próprios editores da autora, que aprovaram a história. Aos leitores, o que resta? Um retrato do estado do mundo criativo? A facilidade com que as ideias se maturam e transformam? Não sei ao certo, mas posso dizer-vos que, apesar de tudo isto, considerei “A Mulher no Andar de Cima” uma história mais madura nas suas diversas camadas, ainda que reconheça que seria o mínimo esperado para algo assim voltar a surgir no mercado.
Não é a primeira vez que Freida McFadden é acusada de cópia
Foi ao ler as críticas no Goodreads a este livro que me deparei com leitores a acusar a autora de ter copiado outras histórias nas suas obras mais recentes.

Tendo lido os livros referidos de Freida (“Não Incomodar” e “A Criada”), tenho já na lista a leitura da duologia “The Last Mrs. Parrish” (que será adaptada para série na Netflix) e conto perceber até que ponto a visão de diversos leitores se traduz, efectivamente, na verdade.
Qual a vossa opinião? Estamos perante um plágio direto, ou uma inspiração evidente, mas com execução e maturação diferentes?

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