Reflexão de 31 anos e as transformações da vida

Uma das maravilhas de trabalhar num escritório são as conversas que temos, ou simplesmente ouvimos, dos nossos colegas. Com idades, gostos e experiências diferentes, estas tornam-se ricas em partilha de ideias, troca de opiniões e muitas gargalhadas. As consternações do dia a dia também fazem parte e, seja em pausas ou em momentos mais calmos, essas reflexões acabam por surgir naturalmente.

As vozes, diferentes em género e até na cultura de quem cresceu no Norte (em contraste comigo, que fui criado na região Centro), levam também a constatações mais profundas sobre o próprio crescimento. Sobre como certas vivências se transformam completamente e colocam em evidência a evolução do país. Sobre como determinadas políticas marcaram épocas e, no tempo de cada um dos meus colegas e amigos, resultaram em experiências distintas.

Um rapaz de 95

Nunca imaginei, aos 31 anos, estar a estudar — mas aqui estou eu. O mesmo acontece com tantas outras pessoas que frequentam o curso comigo em regime pós-laboral. Também nunca pensei que a crise da habitação atingisse níveis tão astronómicos, com impacto direto no tecido social jovem. Mas, ao colocar os meus anos de vivência num lado da balança e os de pessoas mais velhas no outro, torna-se evidente como estas mais de três décadas são profundamente diferentes. E não apenas pelas oportunidades, mas pelas prioridades que hoje definem as nossas vidas, incluindo as minhas.

Aos trinta anos, se tivesse nascido noutra época, isso significaria, muito provavelmente, já ter concluído uma licenciatura, com prestígio associado, emprego garantido e um salário correspondente. Comprar casa, ou até um terreno, seria bastante mais acessível, possivelmente com benefícios como anos de isenção alargada de IMI. Talvez ainda não tivesse filhos, mas seria expectável — e acredito que muitos dos meus colegas já os teriam tido anos antes. Voltar a estudar? Mudar de área? Seria algo raro.

Mas, tendo nascido em 1995, a minha realidade é outra. E refletir sobre os meus objetivos para este ano passa, precisamente, por compreender essa diferença.

Uma volta de 360º na esfera sociopolítica

Estas conversas com colegas estendem-se também aos meus amigos mais próximos, e é fascinante perceber como o pensamento se alinha, fruto da realidade social que partilhamos. Com tanta oferta e com o constante bombardeamento de experiências, vidas e conquistas que vemos, especialmente nas redes sociais, somos naturalmente atraídos para esse estilo de vida.

De forma consciente ou não, acabamos por preferir sacrificar poupanças para viver experiências, como viajar para um novo destino. E esse “sacrifício” nem sempre pesa negativamente, porque, para muitos, o impacto mental e emocional de uma viagem compensa largamente. Ao mesmo tempo, com a incerteza crescente e a idade a avançar, viver o presente torna-se essencial. Aproveitar ao máximo e fazer escolhas que, embora questionáveis para gerações mais velhas, nos ensinam novas formas de estar.

Eu próprio já passei por todas essas fases. Questionar se devo usar dinheiro para amortizar um crédito ou investi-lo. Aprender, com o contexto atual e o cenário geopolítico, a fazer o verdadeiro malabarismo da vida adulta: definir prioridades. Perceber o peso da felicidade e aceitar que, muitas vezes, o essencial é invisível aos olhos.

Mas, com a quantidade de notícias que nos rodeiam diariamente, há cada vez mais coisas que sinto necessidade de preservar. De valorizar. Porque são únicas. E, nas conversas com colegas, amigos e família, percebo que os meus 31 anos carregam objetivos que, por mais simples ou até vazios que possam parecer, têm um significado muito próprio.

Fiz 31 anos e quero abrandar. Quero continuar a cultivar a curiosidade e a empatia pelos outros, mas também por mim. Quero usá-las para me informar melhor, preparar o futuro e tomar decisões mais conscientes: investimentos, compras ponderadas, escolhas com intenção. Quero recuperar tempo para os meus projetos pessoais, aos quais abdiquei no último ano. Quero escrever mais.

E, acima de tudo, quero manter a consciência diária de que estou em constante crescimento, e que a minha opinião não está, nem deve estar, cristalizada. Sinto que essa rigidez é, muitas vezes, a morte do artista. E, se há algo que a realidade me tem ensinado, é que não quero abdicar da esperança nem da felicidade.

Num mundo saturado de notícias negativas, onde até o conhecimento científico é frequentemente questionado com facilidade, quero lembrar-me de que viver o presente é um privilégio. Que, apesar das diferenças entre gerações, o peso da História continua presente. E que, talvez, aproveitar oportunidades, como viagens, concertos ou momentos simples, seja a melhor forma de navegar num mundo que, por vezes, parece ameaçar a criatividade e qualquer forma de expressão artística.

Apesar de todos os receios, estou ansioso pelos meus 31 anos. Sei que os desafios estarão presentes, em cada notícia, em cada reviravolta, mas também sei que continuarei a lutar para manter vivas todas as minhas paixões.

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