Chegámos à IA sem resolver o básico

the word creativity spelled out with scrabble tiles

Adoro os segmentos publicitários dos detergentes da roupa. Crianças a correr, pais felizes, pouco preocupados com a sujidade potenciada pela chuva que, nesses anúncios, começa sempre a cair no momento certo e, claro, com os ténis brancos a mergulharem numa poça de lama. No final, pelo menos daquilo que a minha memória guarda, surge a mítica frase da Skip: “É bom sujar-se.”

Só que, terminado o anúncio, fica a amargura. A de perceber que aquilo é, realmente, só publicidade. E que encontrar essa mentalidade na sociedade, essa leveza de deixar uma criança ser criança, parece, cada vez mais, difícil.

Vivemos a correr. E, mesmo não tendo filhos, a minha rotina nos últimos anos tem-me dado uma capacidade empática cada vez maior por quem os tem. Equilibrar trabalho, aulas, hobbies e vida pessoal é um exercício quase impossível. Perceber como é fácil deixar algo para segundo plano quando, ao final de um dia, de uma semana ou de um ano, o pouco tempo que tínhamos para descansar foi, na verdade, gasto em limpezas, planeamento e tarefas acumuladas. Ou, pior ainda, em distrações que pouco acrescentam e muito nos roubam, como o famoso scroll infindável nas redes sociais.

De uma forma bastante vincada, isto remete-me para as horas que, há uns anos, numa disciplina ligada à Educação, passávamos a debater o estado lastimoso do nosso sistema de ensino. Um sistema cansado, sem tempo para nada: nem para as matérias, nem — e talvez mais importante — para os professores e os alunos. Debates intensos aconteceram, os anos foram passando e alguns projetos-piloto surgiram a nível nacional (1, 2). Mas, se esta passagem do tempo me ensinou alguma coisa, é que estas ideias demoram demasiado a propagar-se e a repercutir os seus impactos.

Foi tudo isto que senti ao ouvir, há uns dias, o Professor Catedrático Rui Nunes, no meu instituto, num seminário dedicado ao tema “IA aplicada à educação e o impacto nas atuais e futuras gerações de estudantes”.

Otimista que sou, apesar de consciente dos maus atores que existem na sociedade (e que não surgiram com a IA, apenas ganharam novas ferramentas) dei por mim a concordar com grande parte da reflexão que o palestrante partilhou connosco. Todavia, no final do discurso, e perante algumas das perguntas que lhe foram feitas, percebi que muitos dos perigos e desafios que hoje associamos à Inteligência Artificial não foram propriamente provocados por ela. Foram, sim, alavancados por ela. Porque, na realidade, nunca parámos verdadeiramente para refletir e atuar sobre eles.

Reféns de uma sociedade sem tempo, em Portugal continuamos presos a um problema que, em muitos países nórdicos da Europa, já começou a ser enfrentado de forma mais séria: a importância dada ao tempo, à infância e ao tempo de qualidade. Dados recentes mostram que Portugal é hoje um dos países da União Europeia com menor proporção de crianças e que as crianças portuguesas estão entre as que passam mais horas por semana em creches e escolas (3). Ou seja, falamos muito da infância, mas damos-lhe cada vez menos espaço para existir fora de horários, objetivos, avaliações e atividades.

Ao perceber, nas reflexões tidas naquele dia, o quão longe ainda estamos de uma cultura que valorize verdadeiramente o tempo — o tempo para aprender, brincar, errar, criar e simplesmente estar —, torna-se ainda mais fraturante pensar na avalanche que o uso da Inteligência Artificial poderá trazer à nossa sociedade. Não porque a IA seja, por si só, o problema, mas porque chega a um contexto já frágil: uma sociedade cansada, acelerada e ainda pouco preparada para distinguir rapidez de compreensão.

Num país onde os resultados em Matemática e Leitura voltaram a preocupar, e onde a interpretação continua a ser uma dificuldade estrutural (4, 5), o paradigma de um ensino que privilegia a velocidade em vez da compreensão pode expor ainda mais as desigualdades que já existem. E não falo apenas da escola. Falo também do mercado de trabalho, da literacia mediática, da capacidade de interpretar informação, de resistir à manipulação e de construir pensamento crítico.

Quer isto seja potenciado pelas desigualdades no acesso ao ensino, à literatura ou à cultura, a desvalorização continuada da criatividade, da individualidade e da diferença representa um dos maiores riscos. Mas reparem: estes desafios já existiam. São desafios que discutia há quase dez anos. Não foi a IA que os trouxe. E é isso que mais me assusta. Que só estejamos agora a falar da nossa massa cinzenta por receio do que poderá acontecer daqui a dez anos, quando fomos incapazes de trabalhar estes temas nos dez anos anteriores.

Existem escolas, em vários pontos do mundo, que não ensinam apenas programação aos seus alunos (a vertente lógica), mas também literacia tecnológica, pensamento crítico e identificação de notícias falsas (6). Se isto já acontece noutros contextos, como se justifica a nossa inércia? Por questões políticas? Por se continuar a reservar o pensamento crítico para determinadas elites? Por falta de profissionais? Por ausência de visão? Talvez por tudo isto ao mesmo tempo.

Com uma classe docente envelhecida, como diversas notícias nos têm mostrado (7), preparar a escola do amanhã parece uma responsabilidade que, cada vez mais, vai sendo relegada para o ensino superior. Mas, com o custo de vida a aumentar e com tantas famílias e estudantes a enfrentarem dificuldades económicas, o acesso a essa mesma escola torna-se cada vez mais desigual. E, mesmo quando se chega lá, o ensino superior parece ainda incapaz, em muitos casos, de adotar modelos de avaliação e aprendizagem mais alinhados com aquilo que anos de investigação e experiências diferenciadoras já nos mostram.

A questão não é copiar o que se faz lá fora só porque vem de fora. A questão é olhar para estudos, práticas e modelos pedagógicos que demonstram benefícios na valorização da compreensão, da criatividade e da diferença. Num país onde tantos estudantes vivem sob pressão, onde a média continua a condicionar percursos, bolsas, expectativas e futuro, e onde notícias recentes apontam para níveis preocupantes de sofrimento psicológico e consumo de psicotrópicos entre estudantes (8), o estímulo da criatividade parece, cada vez mais, esmorecer.

E, se esta inércia já faz parte do ADN de tantas instituições, haverá realmente surpresa quando modelos de Inteligência Artificial são usados para realizar trabalhos inteiros sem grande questionamento? Ou quando passam a substituir amigos, aconselhamento financeiro ou até apoio psicológico? (9, 10)

Continuo otimista em relação ao uso da Inteligência Artificial. As suas potencialidades na cura de doenças, na simplificação de tarefas de trabalho e nos avanços em acessibilidade são estonteantes. Aliada a equipamentos inteligentes vestíveis, os wearables, e às apostas de empresas como Apple, Google ou Samsung, a IA pode também ter um papel relevante na saúde e no bem-estar. Não só pela forma como estes dispositivos nos podem tornar mais conscientes dos nossos hábitos, mas também pela possibilidade de ajudarem a prevenir, acompanhar e estimular comportamentos mais saudáveis.

Obviamente que isto, por si só, representa riscos. Desde a eventual ansiedade provocada pela monitorização constante do corpo até à forma como estes dados poderão ser usados por empresas, seguradoras ou outras entidades no futuro. Até que ponto poderão estes dados beneficiar os utilizadores? E até que ponto poderão, em determinados contextos, prejudicá-los no acesso a seguros, cuidados ou oportunidades? Infelizmente, isto daria uma outra reflexão (11, 12, 13).

Fonte: Microsoft (14)

Apesar disto, e de todo o marketing existente e potenciado por estas mesmas empresas, a utilização mundial destas ferramentas continua longe de ser universal. Segundo dados da Microsoft, no primeiro trimestre de 2026, a adoção global de IA generativa situava-se nos 17,8% da população mundial em idade ativa (14). Ao mesmo tempo, alguns indicadores mostram uma adesão particularmente forte em determinados países, incluindo Portugal, ainda que estes dados devam ser lidos com prudência quando resultam, por exemplo, de métricas baseadas em downloads de aplicações.

E talvez seja precisamente aqui que mora o paradoxo. Ao mesmo tempo que a IA ainda não chegou verdadeiramente a todos, já começa a influenciar a forma como estudamos, trabalhamos, pesquisamos, pedimos conselhos e até procuramos apoio emocional. A questão, por isso, não é apenas saber se usamos muito ou pouco. É perceber se usamos com pensamento crítico, literacia e capacidade de questionar aquilo que nos é devolvido.

Também por isso, quer por necessidades tecnológicas, quer por pressão do mercado, muitas empresas começam a empurrar profissionais e consumidores para este caminho, mesmo quando isso pode colidir com princípios pessoais, éticos ou criativos. Num futuro muito próximo, teremos de olhar com maior seriedade para aquilo que consideramos ser plágio, autoria, produção intelectual e proteção dos direitos de quem cria.

Existe, claro, algo extremamente importante nisto tudo. Apesar de tudo o que li e refleti ao longo destes anos, conhecer os reais impactos da Inteligência Artificial a longo prazo ainda é difícil. A validade científica exige tempo, método e prudência. Porém, ao observar certos comportamentos, de líderes, de instituições e até de colegas, vejo como estas ferramentas são, muitas vezes, usadas com pouca criticidade e com uma dependência da resposta rápida em vez da resposta compreendida.

E isto faz diferença.

Não porque a IA torne automaticamente o cérebro preguiçoso, mas porque pode habituar-nos à ausência de esforço, de dúvida e de confronto com o erro. E é aqui que volto ao anúncio da Skip. Porque, em teoria, a tecnologia poderia devolver-nos tempo. Poderia simplificar tarefas, libertar rotinas e abrir espaço para pensar, criar, brincar e estar. Mas será que esse tempo recuperado nos levará mesmo de volta à poça de lama, aos ténis sujos e ao “é bom sujar-se”? Ou será apenas preenchido com mais produtividade, distração e mais pressão?

Vejo pais cada vez mais preocupados com a aparência dos filhos do que com o seu desenvolvimento. Vejo crianças cheias de atividades para compensar ausências que ninguém sabe muito bem como resolver. Vejo jovens que chegam à adolescência ou à idade adulta sem saberem exatamente o que querem, o que gostam ou quem são, porque talvez nunca tenham tido tempo, espaço ou alguém que os ouvisse verdadeiramente.

E esta falta de escuta é perigosa.

Trago isto também do que vi no meu tempo numa instituição para menores. A falta de escuta, a incapacidade de compreender os jovens e a constante tentativa de os moldar a uma norma levavam, muitas vezes, a sentimentos de ódio, à distorção do que significava ser homem e à repressão completa de emoções sinceras. Emoções que, se fossem ouvidas, poderiam ajudar a crescer.

Mas este texto não era sobre Inteligência Artificial?

Para vocês, talvez. Para mim, nunca foi apenas sobre isso. Porque, ao olharmos constantemente para os temas de forma normativa e isolada, esquecemo-nos de que o mundo é holístico. E muitos dos problemas levantados pelo aparecimento da Inteligência Artificial são, na verdade, problemas antigos que nunca tivemos coragem de discutir com profundidade.

Quanto ao futuro, quero acreditar que melhore. Mas não por causa da IA. Quero acreditar que melhore pela forma como seremos obrigados a voltar a valorizar o tempo, a criatividade, a identidade, a interculturalidade e a dimensão humana das nossas relações.

Muita coisa terá de mudar. E talvez seja isso o que mais me assusta quando penso na mentalidade cultural do nosso país. As nossas crianças passam demasiado tempo na escola. Os pais enchem-se de tarefas e enchem os filhos de atividades, muitas vezes para compensar o tempo que não conseguem ter para si próprios. O equilíbrio parece cada vez mais difícil de atingir.

Ainda assim, quero acreditar. Pelo menos nesta vertente. Quero acreditar que a tecnologia, se for acompanhada de pensamento crítico, empatia e coragem política, nos possa ajudar a recuperar algum tempo. Não para produzir mais. Mas para viver melhor.

O meu receio não é a Inteligência Artificial substituir-nos. É que a Inteligência Artificial chegue a uma sociedade que já se tinha esquecido de pensar, de escutar, de brincar e de dar tempo ao tempo.

Referências:

1 – Nova versão do Projeto-Piloto de Inovação Pedagógica (PPIP II) arranca em 2024/25 em 7 escolas (24 de agosto de 2024)

2 – Projeto-piloto “Capacitar Comunidades através da Literacia Digital e da IA”, no Porto (3 de julho de 2025)

3 – Portugal é dos países da União Europeia com menos crianças, e onde “As crianças portuguesas estão entre as que passam mais horas por semana em creches e escolas.” (1 de junho de 2026)

4 – Um dos grandes problemas da Matemática continua a ser… o Português (28 de junho de 2023)

5 – Alunos portugueses pioram a Matemática e a Leitura no PISA de 2022 (5 de dezembro de 2023)

6 – Filândia combate notícias falsas através da educação. IA pode tornar a tarefa mais difícil (18 de agosto de 2025)

7 – Perfil dos professores: mais envelhecidos, 15% mestres ou doutores, esmagadoramente mulheres (22 de setembro de 2025)

8 – Inquérito a 2300 estudantes: sentem-se tristes e 40% consomem psicotrópicos (20 de junho de 2025)

9 – Mais de 60% usam IA para apoio em saúde mental, mas muitos não estão satisfeitos, revela inquérito (3 de março de 2026)

10 – Eles usam o ChatGPT como psicólogo porque “não julga” e não se cansa. Mas quais os riscos? (17 de julho de 2025)

11 – O lado oculto dos wearables: relógios inteligentes podem favorecer ansiedade e desconexão corporal (16 de maio de 2026)

12 – Ansiedade causada por smartwatch levou mulher a realizar 916 ECGs em um ano (2022)

13 – The Meteoric Rise—And Problematic Future—Of Wearable Sleep Tech – Forbes Vetted

14 – O panorama global da adoção da IA em 2026 (8 de maio de 2026)

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