É comum, na paixão pela leitura e pelo objeto livro, nos esqueçamos que ele é um produto. Quer seja do suor e trabalho do autor até ao trabalho feito na sua publicação, há muito fator que define o preço de um livro.

O mercado, outra vez

Pareço um disco riscado com este tema “do mercado”, mas o certo é que sendo Portugal um país pequeno, os índices de leitura tampouco ajudam. Sabemos desde sempre que se lê pouco por cá e que isto irá sempre encarecer o preço de um livro. A pandemia não veio ajudar na equação, visto que as quebras registadas em 2019 e 2020 acabaram por ser significativos e o crescimento só começou no ano passado…

Estamos longe de tiragens de mil exemplares para todos os livros e são cada vez mais as edições cortadas a metade como que teste ao mercado. Isto é facilmente compreendido e corroborado com os dados do ano passado (2021), em que, segundo o jornal Eco:

Até julho venderam-se 5,5 milhões de unidades (+17%), tendo gerado receitas de 70,6 milhões de euros, uma subida de 20% em relação a igual período do ano passado

Todavia, e pelo Observador:

preço médio dos livros sofreu um ligeiro aumento, de 4,2%, para o equivalente a 12,98 euros, em média.

Dos dados curiosos está que não são os livros de ficção o grosso dos números, visto que:

Também nestes países se verificaram as mesmas tendências de mercado encontradas em Portugal: a subida de valor dos preços médios dos livros e a categoria de não-ficção – que inclui obras políticas, financeiras, de culinária, de “lifestyle” e sobre temas ligados ao feminismo – a reunir as preferências, em detrimento das obras de ficção.

via Rádio Renascença

Isto leva-me a ficar apreensivo para os dados deste ano que, tão rapidamente pode continuar e ajudar a manter o nosso setor livreiro saudável, como o levantamento das medidas de confinamento podem levar a novas quebras.

Nada disto deixa-me feliz, visto que mesmo que o valor do IVA para os livros (6%) seja baixo quando comparado a outros setores, ao falarmos do preço de um livro temos de considerar ainda outros fatores e que podem, talvez, ajudar a explicar este aumento generalizado.

A pandemia mudou muita coisa

O nosso mundo mudou para sempre com a pandemia. É chato de relembrar, mas é a verdade. O mesmo para os problemas de distribuição na indústria. Se aliarmos estas crises com os eventuais problemas de índice de leitura, percebamos como que as casas editoriais acabam por aumentar os preços.

Uma editora não deixa de ser uma empresa…

O que me faz gostar destas publicações é que me obriga a olhar para o todo e usar uma componente holística na reflexão que faço e vos levo. O certo é que um livro não deixa de ser um produto para “alimentar” diversas pessoas e suas famílias que trabalham no ramo. Um livro é, claro está e como comecei esta publicação, um produto.

Talvez o porquê de nem sempre vermos isto seja pela necessidade de existir uma Editora, e seus editores, a acreditar na história, palavras e mensagem do autor para as levar mais além. Existe algo de poético nisto. Algo de muito humano. Mas nem sempre isso é fácil e nem as variações do mercado ajudam, levando a que os preços possam acabar por ser o factor que mais oscila.

Na verdade, tem sido recorrente críticas aos preços dos livros e, sendo esses efetivamente caros e onde até já expus a minha revolta em algumas decisões editoriais, há custos que por vezes esquecemos. Custos gerais de impostos até aos direitos de uma tradução, de uma capa, de direitos de autor, aos trabalhadores, assim como à máquina distributiva e de marketing.

Consciência

Publicações destas podem levar a que pensem que sou defensor de tudo isto. O certo é que, em média, os autores em Portugal recebem 10% de direitos de autor após o desconto do IVA, pelo que essa ideia de defensor seria incorreta.

O que retiro de tudo isto é que, sendo os livros uma fonte infindável de magia, aventura, aconchego, emoção e aprendizagem, devíamos pensar no real problema: incentivos à leitura, ao falar dos livros, ao adquirir o que é português, e procurar formas de o Governo apoiar mais a literatura lusófona. Da mesma forma como a rádio tem obrigatoriedade de passar uma percentagem de música portuguesa, seria interessante algo assim no mundo editorial para apimentar todo o monopólio comercial.

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